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Ela acompanha o
“Big Brother Brasil” dia e noite através do canal
pay-per-view. Conta o que acontece na casa quase em
tempo real em seu blog e ainda dá suas opiniões.
Essa é Paty Pegorin, 21 anos, webdesigner e
tecnóloga em informática de Americana (SP). Assim
como Paty, milhões de pessoas acompanham
freneticamente a maratona diária do BBB durante três
meses do ano.
Até 2002, verão era sinônimo de reprises na
televisão. As emissoras não lançavam nenhuma
novidade, as novelas continuavam normalmente,
enquanto séries, programas e filmes eram reprisados
à exaustão, nos chamados “melhores momentos” do ano
anterior. A situação mudou a partir de 2002, quando
a Rede Globo lançou o BBB.
Tudo bem que Silvio Santos havia lançado a “Casa dos
Artistas” meses antes, com imenso sucesso, mas nada
abalou o futuro do programa da Rede Globo, cujo
formato foi comprado da Endemol – esta repassou sua
criação para países do mundo inteiro, obtendo
sucesso em praticamente todos.
Divulgação/TV Globo

Pedro Bial e Marisa Orth conversam com os
participantes do "BBB 1" nos primeiros dias do
reality |
O começo do
reality show, para falar a verdade, não foi dos
melhores: a dupla escolhida para comandá-lo,
Pedro Bial e Marisa Orth, não deu liga.
Poucos dias depois, a atriz foi limada da
apresentação, enquanto Bial prosseguiu, firme e
forte, e se consagrou junto com a atração. |
A segunda edição aconteceu em 2002 mesmo, inclusive
durante a Copa do Mundo vencida pelo Brasil –
ajudava o fato do torneio ser disputado na Coréia e
no Japão, pois os jogos aconteciam apenas de
madrugada e início da manhã. Depois disso, o BBB se
estabeleceu entre janeiro e março.
Saltamos de 2002 para 2007. Chegamos à sétima edição
do BBB. Muita gente nem previa que o programa
duraria tanto tempo, mas está aí. Dezenas de
participantes já passaram pela casa, seis foram
coroados como vencedores e mais um milionário ou
milionária está a caminho.
No entanto, várias perguntas não se calam: por que o
BBB deu certo e dá tanta audiência? O que chama
tanta atenção dos telespectadores no programa? Será
que se fosse exibido por outra emissora daria tão
certo? Para tentar esclarecer essas e outras dúvidas
e debater o assunto, a Revista TH ouviu jornalistas,
especialistas e fãs do reality show.
Uma pesquisa da Folha Online publicada no dia da
estréia do BBB 7 apontou preguiça (27%), cultura do
grotesco (21%), voyeurismo e falta de opções na TV
(empatadas em 18%), explicam o sucesso do programa.
Em entrevista à Revista TH, a jornalista
Leila Reis, presidente da APCA (Associação Paulista
dos Críticos de Arte) e colunista aos domingos no
jornal O Estado de S. Paulo, contou que acompanha o
programa – em virtude de seu trabalho e também
porque gosta –, não concorda com o resultado da
enquete.
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“Eu discordo com
grotesco, isso não existe. Eu considero que quem
dá uma olhada e tem preguiça de mudar até
existe, mas tem essa curiosidade pelo que as
pessoas são. A história de olhar pelo buraco da
fechadura é atraente, a fofoca e o olhar a vida
dos outros é milenar”, comenta. “O que mais
atrai é essa coisa de ver a pessoa se comportar
na intimidade, mas tem também a coisa da
competição. O jogo, torcer por alguém, isso
atrai o telespectador”, completa. |
Divulgação/APCA

A jornalista Leila Reis acompanha o BBB em
virtude
de seu trabalho e também porque gosta do
programa |
Paty, criadora e mantenedora do blog
BBB Virtual,
onde conta tudo o que acontece na casa para quem não
tem pay-per-view e recebe mais de três mil visitas
por dia, também não concorda. “Simplesmente não
havia nenhuma opção inteiramente positiva na enquete.
No item preguiça, a opção sugeria que pelo baixo
nível apresentado pelos participantes não se
exigiria esforço mental do telespectador, e isso em
partes é um absurdo. Se você visitar os blogs e
sites especializados em BBB, verá que existe muita
gente interessante, inteligente e bem informada
assistindo ao programa e comentando as variantes do
jogo, as situações e personalidades. Essa fatia do
público gosta do programa e assiste até como uma
forma de entender um pouco mais sobre a complexidade
dos relacionamentos, e vê na discussão do que ocorre
na casa uma fonte interessante de novas amizades e
aprendizados”, comenta.
O leitor da Folha Online Rodrigo Morais e Silva, que
enviou comentário para o jornal, disse que “como se
já não bastasse o lixo que o BBB representa para a
televisão brasileira, a Globo ainda dá uma lição de
discriminação, escolhendo a dedo os participantes e
excluindo as pessoas de origem humilde, os negros e
os gordos. Isso é uma vergonha pra nós brasileiros”.
Divulgação/TV Globo

Participantes do "BBB 6", em 2006 |
Hugo R. C. Souza, em seu artigo “Antropologia de
heróis e vilões”, publicado no site Observatório da
Imprensa em 22 de fevereiro de 2005, afirma que “o
real espírito esportivo do Big Brother não escapa do
modo de funcionamento da indústria midiática em
geral, cuja produção de sentidos cotidiana não foge
da lógica que deságua sempre na tentativa de
identificação de heróis e vilões, mocinhos e
bandidos”. |
Rosemeire Zago, psicóloga clínica com abordagem
junguiana, citou alguns dos motivos que fazem do BBB
um sucesso nacional em artigo no site Vya Estelar.
“Alguns dizem que querem ver como vivem os famosos
que participam, ou como as pessoas convivem ou
representam, ou ainda, a simples curiosidade. E eu
pergunto: curiosidade de quê? O que pode ter de
diferente em escovar os dentes, tomar banho, trocar
de roupa? Ou ver beijos, abraços, amassos embaixo ou
em cima do edredom? O que pode ter que não vemos ou
vivenciamos na nossa própria casa? Acredito que as
hipóteses são muitas, afinal a maior parte das
pessoas se sente infeliz. Vivemos tanta pressão,
insatisfação, decepção, carência, solidão, amores
que não dão certo, desencontros, expectativas
frustadas, que muitas vezes não sabemos lidar com
tudo isso. Buscamos, ainda que inconscientemente,
aprovação, reconhecimento e nem sempre conseguimos”,
diz um trecho do artigo.
Já a pesquisadora Cosette Castro salienta as novas
possibilidades abertas pelo programa. Segundo ela, o
BBB cria heróis a partir de pessoas ordinárias,
desmistificando assim o processo de produção de
mitos, já que a audiência percebe que o topo não é
inalcançável, ou seja, qualquer um pode se
transformar em estrela da televisão brasileira.
Lá
dentro não é fácil
É
evidente que quem participa da sétima edição do BBB
já vai para o confinamento preparado, sabendo o que
deve fazer para tentar se manter dentro do jogo e
não ser eliminado no paredão. Mas nem sempre o que é
fácil assistir na televisão mostra-se tranqüilo
quando se está do outro lado.
Além dos brothers e sisters, essa sensação foi
vivenciada por nove jornalistas brasileiros, de O
Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O
Dia, Jornal da Tarde, Extra, Diário de S. Paulo e da
agência TV Press. Eles foram convidados pela Rede
Globo e passaram cinco horas dentro da casa dias
antes da estréia da sétima edição, no início do ano.
Para entrar na casa, tiveram que deixar quase tudo
fora: caneta, relógio, celular, bloquinho...
Resultado: sentiram na pele o que passa um BBB
dentro da casa.
| A jornalista Cristina Padiglione, editora do caderno
TV&Lazer do jornal O Estado de S. Paulo foi uma das
que participaram da ‘experiência’. Ela contou as
sensações na matéria “A barra de ser BBB”, publicada
no dia 07 de janeiro. “Por maior que seja o impacto
das chamadas que a Globo bomba no ar com a
mega-estrutura do seu Big Brother Brasil, não é
humano dimensionar a sensação de ocupar aquele
cenário milimetricamente produzido para a escolta de
36 câmeras”, escreveu. |
Divulgação/TV Globo

Câmera da Rede Globo trabalha dentro da
casa, escondido atrás de um dos espelhos:
vigilância total 24 horas por dia |
Cristina relatou que colocou um microfone na roupa e
entrou na casa. Em pouco tempo, todos pareciam
amigos de infância e falavam sem se lembrar que
estavam com o microfone. Constatação: é o que você
vê na telinha durante os meses que o programa fica
no ar. Se em apenas cinco horas deu para sentir tudo
isso, imagine 90 dias, tempo que os dois primeiros
colocados passam confinados?
“A emissora começou a fazer algumas mudanças no
formato, mas todo mundo sabe que tem que chegar lá e
arrumar um namorado, por exemplo. A Cristina foi e
disse que depois de uma hora você vira amigo íntimo
de alguém que nunca viu e acaba relaxando. Não dá
para interpretar o tempo todo, ser ator”, ressalta
Leila Reis.
No entanto, apesar das inúmeras dificuldades, também
existem as vantagens de participar, por exemplo, da
sétima edição. “Na primeira edição tudo era
novidade, ninguém sabia direito do que se tratava o
Big Brother e como funcionaria aqui no Brasil, então
podíamos ver pessoas mais livres e com dúvidas que
ainda não haviam sido respondidas. Na edição atual,
os integrantes já abem como funciona o jogo, o que
cativa o público. Carol e Analy, por exemplo, sabem
praticamente tudo das edições anteriores, parecem
duas especialistas”, lembra Paty.
Você
participaria?
Para
finalizar esta primeira parte, uma pergunta para
Leila Reis e Paty Pegorin. Vocês participariam ou
incentivariam algum conhecido a participar?
TH Imagem

Paty Pegorin acompanha o
BBB 24 horas por dia |
“Aconselharia e até filmaria a inscrição deles para
enviar, simplesmente porque acho uma experiência
maluca e única, que acaba sendo interessante até
mesmo para o auto-conhecimento. Sentir na prática
como você reagiria diante de situações de pressão
extrema acaba ensinando muita coisa, querendo ou
não. E ainda tem a chance de sair milionário da
casa”, destaca Paty.
Já Leila Reis enfatiza: nunca participaria de algo
assim. “Para todo mundo que vai ali, o que menos
interessa é o dinheiro. Todos querem aparecer na TV,
ou para virar artista, ou para ser visto pelos
parentes, tem aquela coisa da projeção. Estar na
televisão é sair do anonimato”, afirma. |
Duas respostas completamente distintas, que
realmente mostram a diversidade de pessoas que
acompanham o reality show. |