Letícia Pontual/Globo.com

Fernando 'Justin' foi eliminado no paredão com
recorde de votos (até o fechamento desta edição) |
O recorde de
votos para eliminar um concorrente na história do
“Big Brother Brasil” foi quebrado no dia 13 de fevereiro de 2007
(e assim permanece, pelo menos até o fechamento
desta edição). Nada menos que 41 milhões de votos foram computados
no paredão entre Diego e Fernando (Justin). Mas por
que tantas pessoas em todo o Brasil se mobilizam e
gastam dinheiro para decidir quem fica ou sai do
reality? |
Para o psicólogo e escritor Roberto Goldkorn,
especialista em fenômenos psíquicos do processo
transpessoal e em Feng Shui, votar no paredão é uma
forma de se “sentir” Deus. Em sua coluna no site Vya
Estelar, Goldkorn abordou o assunto. Confira a
íntegra do artigo abaixo ou
clique aqui para ler diretamente no site.
Votar no Paredão é uma forma de se 'sentir' Deus
Uma das imagens
que mais marcaram a minha vida foi quando o
rechonchudo padre Pires, da 'minha' igreja, disse em
tom quase apoplético: "Deus tudo vê, tudo ouve, tudo
sabe. Não adianta querer esconder nada d'Ele, é
inútil, ele sabe de tudo. Ele está em todos os
lugares, e até dentro da sua cabeça. Ele sabe até
dos seus pensamentos mais secretos!".
Eu devia ter uns oito ou nove anos, sai da igreja em
transe, tremendo de medo, e fiquei marcado por essa
descoberta. No início, me apavorei: "E se Deus visse
o que eu vi, escondido, meu pai e minha mãe fazendo
num domingo à tarde?" Vergonha, arrependimento,
desespero. "E se Deus soubesse dos meus pensamentos,
inconfessáveis: meus desejos pecaminosos de matar o
meu pai, de sair voando pela janela, ou roubar a
bola de futebol (oficial e de couro) do vizinho?".
Mais tarde, esse temor do Olho Divino (e de seu
julgamento) foi sendo substituído por uma espécie de
inveja. Eu também cobiçava um pouco daqueles
superpoderes. Fantasiava ser um Super-Homem, ter
olhar de raios-X, poder atravessar a intimidade das
paredes espessas, e ver o que se passava ali. Mais
do que espiar pelo buraco das fechaduras, eu
fantasiava os poderes de espiar dentro das mentes
alheias, e dos corações, para não ter de recorrer ao
(já na época) antiquado recurso do
bem-me-quer/mal-me-quer. Esse voyeurismo divino,
infantil em sua origem, só muito depois foi
racionalizado quando percebi, tratar-se de uma
característica arquetípica e universal.
Por isso (não só) que o BBB faz tanto sucesso, não
só aqui como em todos os países em que é exibido,
inclusive nos muçulmanos. Porque a maioria de nós
tem a nostalgia das fantasias infantis do "Olho de
Deus", como disse muito bem o saudoso psicanalista
Eduardo Mascarenhas, em seu livro Brasil de Vargas a
Fernando Henrique. Mas prefiro citá-lo nominalmente:
"... todos nascemos infantis, profundamente
infantis, e interpretamos e assimilamos o mundo, de
modo forçosamente infantil. Nada é internalizado,
nada se torna 'realidade' para nós, nada é percebido
sem essa radical transfiguração pueril. Claro, uma
criança só enxerga o mundo com seus próprios olhos.
O edifício das racionalidades adultas é construído
de argamassas pueris. Infantil - essa é a natureza
dos nossos fundamentos. Toda racionalidade é
construída a partir dessa transfiguração originária;
a qual deixará para sempre as suas marcas. Logo a
'racionalidade' é filha da 'irracionalidade'. A
criança é o pai do homem. Todo homem é, basicamente
infantil".
Assim, se explica o porquê das assombrosas votações
na sua última edição (BBB5) que, segundo o site do
programa, o Paredão ultrapassou os 30 milhões de
votos. E se explica também a reação raivosa ou
desdenhosa de quem não gosta do programa (porque já
se acha adulto, e racional o suficiente para essas
baboseiras irracionais). Isto para nós que somos
crianças desprovidas de poder, meros joguetes do
destino, vítimas indefesas e perplexas dos tsunamis
da vida.
'Olhos
de Deus': no dia do paredão ou do 'juízo final'? |
Divulgação

O psicólogo Roberto Goldkorn |
Diante do reality
show BBB, podemos recuperar um tiquinho do poder,
podemos ver através dos nossos olhos eletrônicos e
ouvir, através do nosso áudio onipresente, tudo ou
quase tudo, que eles mesmos, ali na casa não podem.
Como um Deus (quase) todo-poderoso, sabemos de tudo,
julgamos, e decidimos o destino deles. Observamos os
Brothers (significativo não?) como achamos que Deus
nos observa, 'nos mínimos detalhes', decidimos a
'vida' deles assim como achamos que Deus decide a
nossa - nem sempre de forma justa, nem sempre (ou
quase nunca) de forma compreensível.
A turma dos 'gigantes' da casa do BBB, diante de uma
derrota acachapante, fica perplexa, e não consegue
uma leitura correta dessa 'lógica'. Eles não
percebem o que nós percebemos, por algum mecanismo
estupidificante, acham o público (nós/Deus) falhou,
que não percebeu o quanto os outros (os inimigos)
são falsos, maus e injustos. Eles, pelo mesmo
mecanismo estupidificante, não percebem que nós, o
público/Deus, vemos os seus olhares enviesados, os
rizinhos zombeteiros, os pequenos e grandes gestos
agressivos, rejeitadores. Eles, atolados na
realidade do confinamento (assim como nós, atolados
na nossa realidade de ilusões, e limitações
planetárias naturais), não conseguem disfarçar seus
preconceitos, sua raiva, sua dificuldade para lidar
com as diferenças ou para ocultar suas naturezas
pessoais.
Saudáveis, jovens, tratados com mordomias
inimagináveis para as suas vidinhas de classe média,
eles provam do fatídico veneno da convivência
forçada, dos choques das diferenças, e tudo isso
escancaradamente devassados!
Quando Jean Paul Sartre escreveu seu Huis Clos,
sabia do que estava falando, e nós, vendo o carma
instantâneo dos Brothers, nos esquecemos por
instantes do nosso, dos nossos patrões vampiros, dos
nossos vizinhos diabólicos, do marido que nos
inferniza, das armadilhas do destino em que fomos
nos meter e achamos (como os participantes do
programa), que estamos presos, irremediavelmente
cativos daquela ilusão, que ao contrário deles não
vale um milhão.
Quando observo a vida de alguns amigos ou clientes,
sendo julgada e recebendo uma votação esmagadora,
tento imediatamente encontrar os 'sete erros'. Ao
perceber que, essas pessoas diante de um tal
julgamento do 'destino', reagem indignadas,
procurando ora culpar a outrem, ora, apontar o dedo
para o próprio Big Brother que está no Céu
santificado seja, descubro o sétimo erro. O erro do
egocentrismo infantil, do pueril engano de que somos
o centro do mundo, e tudo que acontece, acontece por
nossa causa ou para nossa causa. Gostamos do BBB,
como os gregos antigos se deleitavam com a tragédia
cênica.
Não pensem que estou delirando em comparar o teatro
grego, com o BBB. Ou vocês acreditam que a patuléia
grega ia ao teatro, para se deleitar com a
excelência da direção de atores, ou com o texto
magnífico de Ésquilo? Não, ia para fazer a catarse!
Ia para ver no palco (a uma distância segura) as
suas mazelas, as suas imperfeições, a sua
mesquinhez, ia para ver a casa cair (no palco),e
eles se safarem ilesos. Saia dali com a alma lavada,
achando que "Graças aos deuses do Olimpo, eu não
estava representado ali, naquela farsa trágica".
Não posso dizer que todos os picos e abismos da alma
humana estão representados na casa do BBB, mas há o
suficiente para um bom aperitivo. Acredito que Deus,
como nós, obtém um certo gozo, ao ver desfilar
diante de si (imaginem o tamanho da telona de Deus),
o drama da existência humana. Talvez Ele, assim como
nós, sinta um misto de admiração e inveja por esses
seres confinados na casa chamada Terra. Às vezes nas
minhas fantasias mais alucinadas, "vejo" o Big Boss
lá no Céu, dando um tempo na sua apertada agenda
cósmica, dizendo para seus auxiliares: "Liga aí o
canal da Terra, vamos dar uma espiadinha". |