Divulgação/TV Globo

Ana Paula Arósio e Thiago Lacerda
em "Terra Nostra", novela da
TV Globo vendida para centenas de
países |
As novelas de
época sempre se destacaram na televisão
brasileira. A Rede Globo geralmente dedica o
horário das 18 horas às produções que se passam
em décadas ou até séculos anteriores, mas já
aconteceu de mostrar produções de época no
horário das oito. Nos últimos anos, tramas de
época conquistaram bons pontos no Ibope, como
“Terra Nostra”, “Alma Gêmea”, “Sinhá Moça”,
“Cabocla”, “O Cravo e a Rosa” e “Chocolate com
Pimenta”, entre outras.
Podemos destacar ainda “O Profeta”, em exibição
no horário das seis da Rede Globo, “A Escrava
Isaura”, da Record, produzida em 2004 e
reprisada pela terceira vez desde o início de
fevereiro de 2007, “Essas Mulheres” e “Cidadão
Brasileiro”, também da Record, exibidas,
respectivamente, em 2005 e 2006. |
Até a Band
entrou no ramo das produções de época, com “Paixões
Proibidas”, co-produção com a portuguesa RTP, mas a
novela naufragou no Ibope.
Além da
história, geralmente romântica, a novela de
época chama a atenção das telespectadoras pela
moda. Imagine o trabalho dos figurinistas das
emissoras para encontrar (ou até fabricar)
roupas de época? Trata-se de um trabalho que
envolve muita pesquisa, através de fotografias,
vídeos, depoimentos e revistas.
“Os figurinos das novelas de época sofrem
algumas modificações por questões como o alto
custo da confecção e, principalmente, porque
precisam ser de fácil compreensão e assimilação
do público, pois novelas são produtos comerciais
muito fortes. Quanto ao trabalho de
reconstituição da época, é necessária muita
pesquisa, não somente da indumentária quanto da
história do período a ser retratado, o que exige
dos figurinistas muita leitura e pesquisa
iconográfica”, explica o professor Julius
Pimenta, diretor do curso de Moda da
Unifran
(Universidade de Franca). |
Divulgação/Unifran

O professor Julius Pimenta, diretor
do curso de Moda da Universidade de
Franca: "É necessário muita pesquisa,
não somente da indumentária quanto da
história do período a ser retratado" |
Em seu trabalho
“A influência dos figurinos de novela na moda
brasileira”, Daniela Steffen cita que “são grandes
os investimentos tecnológicos nas novelas, pois ela
garante altos índices de audiência, o que traz o
retorno financeiro e possibilita assim o
revestimento. O figurino, dentro do sistema de
produção da novela, é responsável por definir a
caracterização de cada personagem, viabilizá-lo,
montando um guarda-roupa e orientando o estilo do
cabelo e maquiagem”.
No mesmo trabalho, Daniela cita Marília Carneiro,
figurinista da Rede Globo há muitos anos. “O
figurino de novela começou a se desenvolver, na
televisão brasileira com a estréia da segunda novela
em cores – Os Ossos do Barão (1974), quando os
desenhos dos personagens passaram a incluir desde
bijuteria, jóias que seriam usadas, até a forma de
pentear os cabelos, passando também por acessórios.
As primeiras novelas brasileiras possuíam seu
figurino sob os cuidados por uma legião de ótimos
profissionais em corte e costura. Os figurinistas
naquela época valorizavam a estética das plumas e do
carnaval, criando penteados e fazendo encomendas de
roupas as costureiras”.
“Infelizmente não disponho de tempo para acompanhar
as novelas, mas sempre dou um jeito de assistir
alguns capítulos para ver o figurino, a adequação
entre personagem e vestuário, etc. Admiro muitas
pessoas que conheci e com quem já aprendi muito a
respeito, como a Marília Carneiro, por exemplo”,
cita a consultora de moda e marketing Tânia Lima.
Arquivo pessoal

A
redatora publicitária e professora universitária
Renata
Ranier, de Ribeirão Preto: "As produções da Rede
Globo
são impecáveis. O figurinista deve fazer
pesquisa. Muita
pesquisa, não só de modelos, mas também de
tecidos e
acessórios utilizados em determinadas épocas" |
“As produções
da Rede Globo são impecáveis. Acompanho de vez
em quando novelas e séries de época, mas penso
ser primordial o figurino para compor o clima. O
figurinista deve fazer pesquisa. Muita pesquisa,
não só de modelos, mas também de tecidos e
acessórios utilizados em determinadas épocas,
tudo de acordo com o roteiro, é óbvio”, afirma a
redatora publicitária e professora universitária
Renata Ranier, que gosta muito de moda. |
Inspiração
A história de “O Profeta”, por exemplo, se passa
em 1955. Já “Cidadão Brasileiro”, da Record, teve
três fases, ambientadas nos anos 1950, 1960 e 1970.
Estrelas do cinema dos anos 1950 inspiraram o visual
dos personagens de “O Profeta”. Segundo o site
oficial da novela, a idéia veio do caracterizador
Luiz Camargo, um aficionado pelo cinema da época, e
colocada em prática por Acir Carvalhal, que
supervisiona a equipe de caracterização.
No estilo Marilyn Monroe, Paula Burlamaqui ganhou
uma perca loura bem clara e curta. Já Juliana Baroni,
que vive Miriam, seguiu o estilo de Rita Hayworth,
pintando o cabelo num tom meio cobre. Vera
Zimmermann, ao melhor estilo Debora Kerr em “Bom Dia
Tristeza”, trocou o louro claro por um tom de louro
mais da época. O mesmo filme foi utilizado para
criar o visual de Samara Felippo, que cortou os
cabelos bem curtinhos, inspirada na atriz francesa
Jean Seberg. “Para chegar a esses resultados, a
equipe assistiu a DVDs diariamente. Assim, captaram
elementos dos filmes e depois trouxeram para os dias
atuais”, cita a matéria.
|
O visual da
protagonista Paola Oliveira, que vive Sônia, foi
inspirado em Grace Kelly no filme “Janela
Indiscreta”. A atriz teve que cortar o cabelo e
deixou-o com um tom de louro mais denso. Além
disso, usa um arco combinando com o vestido e a
bolsa. Já a vilã Ruth, papel de Carol Castro,
lembra, segundo o site da novela, uma mistura de
Ava Gardner, “uma mulher que casou com vários
homens e gostava de jóias”, e Elizabeth Taylor. |
Divulgação/TV Globo

O visual de Paola Oliveira em "O Profeta" foi
inspirado na atriz Grace Kelly |
“Acho importante
valorizar também o trabalho de estilistas da
atualidade que se inspiram em épocas. É o caso de
muito glamour e uso de algumas peças da estilista
Isabella Capeto e Adriana Barra. Sei que há uma
personagem vivida pela atriz Juliana Baroni que usa
calcinha com enchimento para aumentar o bumbum, como
um potencial das pin ups da década de 50”, avalia
Tânia.
Já em “Cidadão Brasileiro”, a década de 1960, onde
se passou boa parte da trama, foi caracterizada como
a “década da ousadia”. Não faltou minissaia, jeans,
camisa sem gola e jaqueta de couro nos figurinos dos
personagens. Segundo o site da novela, “blusas com
frente única ou tomara que caia, saias afuniladas
com uma pequena abertura ou prega para facilitar o
cruzar de pernas, sutiãs com suportes para dar mais
volume aos seios, o aumento dos saltos dos sapatos,
maquiagem exagerada que marcava bem os olhos e
vestidos mais justos e mais curtos, ganhavam espaço
no consumo feminino”.
Arquivo pessoal

O especialista em novelas Nilson Xavier |
O movimento
hippie também marcou presença na novela, já que
um dos núcleos da segunda fase se passava numa
comunidade hippie, com destaque para as
personagens de Fernanda Nobre (Tatiana) e
Ticiane Pinheiro (Cláudia).
“O jeans, bordado, tachado, rasgado e cortado,
formava uma atmosfera psicodélica. As mulheres
usaram roupas coloridas, saias longas,
trancinhas no cabelo, acessórios artesanais e
sandálias rasteirinhas”, cita a reportagem. |
“Achei o figurino
de Cidadão Brasileiro interessante, ainda que um
pouco exagerado em certos aspectos, como a
maquiagem, que acho muito pesada, talvez por causa
da iluminação. Com relação aos figurinos, é bom, mas
parece haver uma necessidade de mostrar os
personagens com todos aqueles modismos da época,
como se todo mundo daquele tempo seguisse esses
modismos”, avalia o especialista em telenovelas
Nilson Xavier, do site
Teledramaturgia. “Acho
fantástico os figurinos de novelas de época. É um
trabalho muito difícil e minucioso, que exige muita
pesquisa”, completa.
|
Apesar de não
render o esperado no Ibope – tanto que seu
horário foi alterado para 17h30 – a novela
“Paixões Proibidas”, co-produção entre a Band e
a RTP, conta com guarda-roupa de primeira linha.
A trama, que se passa no início do século 19,
conta com figurinos assinados por Ricardo
Raposo, que coordenou toda uma equipe de
figurinistas que trabalharam dia e noite na
confecção de centenas de roupas usadas no Brasil
e em Portugal de 1805. |
Divulgação/TV Bandeirantes

Miguel Thiré faz teste de figurino em
"Paixões Proibidas", da TV Bandeirantes |
O figurino
mereceu elogios dos atores. “O estado exterior é
determinante para compor o personagem. A roupa de
Arthur é absolutamente fantástica”, declarou o ator
português Carlos Vieira.
Superprodução da Rede Globo em 2007, a minissérie
“Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”, conta com um
guarda-roupa primoroso composto por mais de 16 mil
peças – a maioria feita sob encomenda. As
figurinistas Emília Duncan e Labibe Simão tiveram
que desenhar, apenas para a primeira fase da
minissérie de Glória Perez, roupas para a
aristocracia, os seringueiros e as tribos indígenas.
Divulgação/TV
Globo

Alguns exemplos do figurino de "Amazônia", da TV
Globo |
“Podemos sempre
recorrer à licença poética, mas queríamos fazer
algo que fosse o mais próximo possível da
realidade”, afirma Labibe. “Para as mulheres, as
rendas eram a tônica do momento, pois foram
democratizadas pela invenção de máquinas que as
produziam em série”, explica Emília. |
Qual foi a
melhor novela de época?
Na opinião dos especialistas, qual novela de
época marcou em função do figurino? “É muito difícil
citar um exemplo apenas. Existem inúmeros trabalhos
primorosos e muita gente especializada no assunto
trabalhando exclusivamente em reconstituição de
época, seja em cenários ou fiigurinos. Cito, por
exemplo, as minissérie Os Maias, Agosto e Anos
Dourados, e as novelas Terra Nostra e Força de um
Desejo”, destaca Nilson.
“JK. Adorei o figurino, a maquiagem, os cabelos. E
como a série mostrou mais um período de história do
Brasil, deu para perceber muitas mudanças e como as
pessoas se vestiam. Gostei, principalmente da fase
Bossa Nova”, avalia Renata. Já o professor Julius
destaca duas novelas recentes da Rede Globo.
“Chocolate com Pimenta e Sinhá Moça”.
A estrela dos figurinos
Em entrevista
ao site
iBahia, Marília Carneiro contou como
começa a criação dos figurinos. “Tudo começa a
partir da sinopse, que é um resumo do perfil dos
personagens. Às vezes, antes mesmo do elenco ser
escalado, já temos algumas idéias, que a gente
começa a criar em comum acordo com o diretor.
Depois é que começa a interação com os atores,
que vão trazer a visão deles e esta pode
coincidir, ou não, com a minha. Então, a gente
tem que negociar”, explica.
Na mesma entrevista, Marília citou a criação dos
personagens de época. |
Divulgação

A figurinista Marília Carneiro |
“É uma outra
técnica e é muito mais complicado. A gente estuda
muito através da pintura porque não tem a facilidade
de pegar fotos. Vamos citar um trabalho que eu fiz:
o Xangô de Baker Street, que foi todo em cima de
quadros do século XIX. Eu procuro me transformar,
tentar viajar no tempo e descobrir os comportamentos
daquelas pessoas, o que eles comiam, se tinham
preocupação com o peso. O que existe é uma forte
tendência de puxar os comportamentos da época para
os dias atuais, para não chocar, não ficar feio.
Quando fiz A Casa das Sete Mulheres, tentei ser
radical, não mexi muito nos cabelos e todas as
sombrancelhas eram naturais. Mas exige uma pesquisa
para que pareça real”, contou.
E vem muito mais por aí. A Rede Globo
já produz “Eterna Magia”, de Elizabeth Jhin, a
próxima novela das seis, que será ambientada nos
anos 1940. Novas minisséries de época também estão
previstas para os próximos anos na emissora,
inclusive uma de Silvio de Abreu que falará sobre
Carmem Miranda, que deverá estrear no início de
2009. |