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REPORTAGEM ESPECIAL
 
 
A moda nas novelas de época
 
Pode ser no século 19 ou nos anos 1950. Para reconstituir a moda que será exibida nas novelas de época, os figurinistas realizam um trabalho de pesquisa fantástico, que gera os resultados que você assiste nas tramas e encanta o público pelo realismo
 

Thell de Castro
Editor da Revista TH
thelldecastro@telehistoria.com.br

 
Divulgação/TV Globo

Ana Paula Arósio e Thiago Lacerda
em "Terra Nostra", novela da
TV Globo vendida para centenas de
países
As novelas de época sempre se destacaram na televisão brasileira. A Rede Globo geralmente dedica o horário das 18 horas às produções que se passam em décadas ou até séculos anteriores, mas já aconteceu de mostrar produções de época no horário das oito. Nos últimos anos, tramas de época conquistaram bons pontos no Ibope, como “Terra Nostra”, “Alma Gêmea”, “Sinhá Moça”, “Cabocla”, “O Cravo e a Rosa” e “Chocolate com Pimenta”, entre outras.

Podemos destacar ainda “O Profeta”, em exibição no horário das seis da Rede Globo, “A Escrava Isaura”, da Record, produzida em 2004 e reprisada pela terceira vez desde o início de fevereiro de 2007, “Essas Mulheres” e “Cidadão Brasileiro”, também da Record, exibidas, respectivamente, em 2005 e 2006.

 Até a Band entrou no ramo das produções de época, com “Paixões Proibidas”, co-produção com a portuguesa RTP, mas a novela naufragou no Ibope.

Além da história, geralmente romântica, a novela de época chama a atenção das telespectadoras pela moda. Imagine o trabalho dos figurinistas das emissoras para encontrar (ou até fabricar) roupas de época? Trata-se de um trabalho que envolve muita pesquisa, através de fotografias, vídeos, depoimentos e revistas.

“Os figurinos das novelas de época sofrem algumas modificações por questões como o alto custo da confecção e, principalmente, porque precisam ser de fácil compreensão e assimilação do público, pois novelas são produtos comerciais muito fortes. Quanto ao trabalho de reconstituição da época, é necessária muita pesquisa, não somente da indumentária quanto da história do período a ser retratado, o que exige dos figurinistas muita leitura e pesquisa iconográfica”, explica o professor Julius Pimenta, diretor do curso de Moda da Unifran (Universidade de Franca).

Divulgação/Unifran

O professor Julius Pimenta, diretor
do curso de Moda da Universidade de
Franca: "É necessário muita pesquisa,
não somente da indumentária quanto da
história do período a ser retratado"

Em seu trabalho “A influência dos figurinos de novela na moda brasileira”, Daniela Steffen cita que “são grandes os investimentos tecnológicos nas novelas, pois ela garante altos índices de audiência, o que traz o retorno financeiro e possibilita assim o revestimento. O figurino, dentro do sistema de produção da novela, é responsável por definir a caracterização de cada personagem, viabilizá-lo, montando um guarda-roupa e orientando o estilo do cabelo e maquiagem”.

No mesmo trabalho, Daniela cita Marília Carneiro, figurinista da Rede Globo há muitos anos. “O figurino de novela começou a se desenvolver, na televisão brasileira com a estréia da segunda novela em cores – Os Ossos do Barão (1974), quando os desenhos dos personagens passaram a incluir desde bijuteria, jóias que seriam usadas, até a forma de pentear os cabelos, passando também por acessórios. As primeiras novelas brasileiras possuíam seu figurino sob os cuidados por uma legião de ótimos profissionais em corte e costura. Os figurinistas naquela época valorizavam a estética das plumas e do carnaval, criando penteados e fazendo encomendas de roupas as costureiras”.

“Infelizmente não disponho de tempo para acompanhar as novelas, mas sempre dou um jeito de assistir alguns capítulos para ver o figurino, a adequação entre personagem e vestuário, etc. Admiro muitas pessoas que conheci e com quem já aprendi muito a respeito, como a Marília Carneiro, por exemplo”, cita a consultora de moda e marketing Tânia Lima.

Arquivo pessoal

A redatora publicitária e professora universitária Renata
Ranier, de Ribeirão Preto: "As produções da Rede Globo
são impecáveis. O figurinista deve fazer pesquisa. Muita
pesquisa, não só de modelos, mas também de tecidos e
acessórios utilizados em determinadas épocas"
“As produções da Rede Globo são impecáveis. Acompanho de vez em quando novelas e séries de época, mas penso ser primordial o figurino para compor o clima. O figurinista deve fazer pesquisa. Muita pesquisa, não só de modelos, mas também de tecidos e acessórios utilizados em determinadas épocas, tudo de acordo com o roteiro, é óbvio”, afirma a redatora publicitária e professora universitária Renata Ranier, que gosta muito de moda.

Inspiração

A história de “O Profeta”, por exemplo, se passa em 1955. Já “Cidadão Brasileiro”, da Record, teve três fases, ambientadas nos anos 1950, 1960 e 1970.

Estrelas do cinema dos anos 1950 inspiraram o visual dos personagens de “O Profeta”. Segundo o site oficial da novela, a idéia veio do caracterizador Luiz Camargo, um aficionado pelo cinema da época, e colocada em prática por Acir Carvalhal, que supervisiona a equipe de caracterização.

No estilo Marilyn Monroe, Paula Burlamaqui ganhou uma perca loura bem clara e curta. Já Juliana Baroni, que vive Miriam, seguiu o estilo de Rita Hayworth, pintando o cabelo num tom meio cobre. Vera Zimmermann, ao melhor estilo Debora Kerr em “Bom Dia Tristeza”, trocou o louro claro por um tom de louro mais da época. O mesmo filme foi utilizado para criar o visual de Samara Felippo, que cortou os cabelos bem curtinhos, inspirada na atriz francesa Jean Seberg. “Para chegar a esses resultados, a equipe assistiu a DVDs diariamente. Assim, captaram elementos dos filmes e depois trouxeram para os dias atuais”, cita a matéria.

O visual da protagonista Paola Oliveira, que vive Sônia, foi inspirado em Grace Kelly no filme “Janela Indiscreta”. A atriz teve que cortar o cabelo e deixou-o com um tom de louro mais denso. Além disso, usa um arco combinando com o vestido e a bolsa. Já a vilã Ruth, papel de Carol Castro, lembra, segundo o site da novela, uma mistura de Ava Gardner, “uma mulher que casou com vários homens e gostava de jóias”, e Elizabeth Taylor.

Divulgação/TV Globo

O visual de Paola Oliveira em "O Profeta" foi
inspirado na atriz Grace Kelly

“Acho importante valorizar também o trabalho de estilistas da atualidade que se inspiram em épocas. É o caso de muito glamour e uso de algumas peças da estilista Isabella Capeto e Adriana Barra. Sei que há uma personagem vivida pela atriz Juliana Baroni que usa calcinha com enchimento para aumentar o bumbum, como um potencial das pin ups da década de 50”, avalia Tânia.

Já em “Cidadão Brasileiro”, a década de 1960, onde se passou boa parte da trama, foi caracterizada como a “década da ousadia”. Não faltou minissaia, jeans, camisa sem gola e jaqueta de couro nos figurinos dos personagens. Segundo o site da novela, “blusas com frente única ou tomara que caia, saias afuniladas com uma pequena abertura ou prega para facilitar o cruzar de pernas, sutiãs com suportes para dar mais volume aos seios, o aumento dos saltos dos sapatos, maquiagem exagerada que marcava bem os olhos e vestidos mais justos e mais curtos, ganhavam espaço no consumo feminino”.

Arquivo pessoal

O especialista em novelas Nilson Xavier
O movimento hippie também marcou presença na novela, já que um dos núcleos da segunda fase se passava numa comunidade hippie, com destaque para as personagens de Fernanda Nobre (Tatiana) e Ticiane Pinheiro (Cláudia).

“O jeans, bordado, tachado, rasgado e cortado, formava uma atmosfera psicodélica. As mulheres usaram roupas coloridas, saias longas, trancinhas no cabelo, acessórios artesanais e sandálias rasteirinhas”, cita a reportagem.

“Achei o figurino de Cidadão Brasileiro interessante, ainda que um pouco exagerado em certos aspectos, como a maquiagem, que acho muito pesada, talvez por causa da iluminação. Com relação aos figurinos, é bom, mas parece haver uma necessidade de mostrar os personagens com todos aqueles modismos da época, como se todo mundo daquele tempo seguisse esses modismos”, avalia o especialista em telenovelas Nilson Xavier, do site Teledramaturgia. “Acho fantástico os figurinos de novelas de época. É um trabalho muito difícil e minucioso, que exige muita pesquisa”, completa.

Apesar de não render o esperado no Ibope – tanto que seu horário foi alterado para 17h30 – a novela “Paixões Proibidas”, co-produção entre a Band e a RTP, conta com guarda-roupa de primeira linha. A trama, que se passa no início do século 19, conta com figurinos assinados por Ricardo Raposo, que coordenou toda uma equipe de figurinistas que trabalharam dia e noite na confecção de centenas de roupas usadas no Brasil e em Portugal de 1805.

Divulgação/TV Bandeirantes

Miguel Thiré faz teste de figurino em
"Paixões Proibidas", da TV Bandeirantes

O figurino mereceu elogios dos atores. “O estado exterior é determinante para compor o personagem. A roupa de Arthur é absolutamente fantástica”, declarou o ator português Carlos Vieira.

Superprodução da Rede Globo em 2007, a minissérie “Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”, conta com um guarda-roupa primoroso composto por mais de 16 mil peças – a maioria feita sob encomenda. As figurinistas Emília Duncan e Labibe Simão tiveram que desenhar, apenas para a primeira fase da minissérie de Glória Perez, roupas para a aristocracia, os seringueiros e as tribos indígenas.

Divulgação/TV Globo

Alguns exemplos do figurino de "Amazônia", da TV Globo
“Podemos sempre recorrer à licença poética, mas queríamos fazer algo que fosse o mais próximo possível da realidade”, afirma Labibe. “Para as mulheres, as rendas eram a tônica do momento, pois foram democratizadas pela invenção de máquinas que as produziam em série”, explica Emília.

Qual foi a melhor novela de época?

Na opinião dos especialistas, qual novela de época marcou em função do figurino? “É muito difícil citar um exemplo apenas. Existem inúmeros trabalhos primorosos e muita gente especializada no assunto trabalhando exclusivamente em reconstituição de época, seja em cenários ou fiigurinos. Cito, por exemplo, as minissérie Os Maias, Agosto e Anos Dourados, e as novelas Terra Nostra e Força de um Desejo”, destaca Nilson.

“JK. Adorei o figurino, a maquiagem, os cabelos. E como a série mostrou mais um período de história do Brasil, deu para perceber muitas mudanças e como as pessoas se vestiam. Gostei, principalmente da fase Bossa Nova”, avalia Renata. Já o professor Julius destaca duas novelas recentes da Rede Globo. “Chocolate com Pimenta e Sinhá Moça”.

A estrela dos figurinos

Em entrevista ao site iBahia, Marília Carneiro contou como começa a criação dos figurinos. “Tudo começa a partir da sinopse, que é um resumo do perfil dos personagens. Às vezes, antes mesmo do elenco ser escalado, já temos algumas idéias, que a gente começa a criar em comum acordo com o diretor. Depois é que começa a interação com os atores, que vão trazer a visão deles e esta pode coincidir, ou não, com a minha. Então, a gente tem que negociar”, explica.

Na mesma entrevista, Marília citou a criação dos personagens de época.

Divulgação

A figurinista Marília Carneiro

“É uma outra técnica e é muito mais complicado. A gente estuda muito através da pintura porque não tem a facilidade de pegar fotos. Vamos citar um trabalho que eu fiz: o Xangô de Baker Street, que foi todo em cima de quadros do século XIX. Eu procuro me transformar, tentar viajar no tempo e descobrir os comportamentos daquelas pessoas, o que eles comiam, se tinham preocupação com o peso. O que existe é uma forte tendência de puxar os comportamentos da época para os dias atuais, para não chocar, não ficar feio. Quando fiz A Casa das Sete Mulheres, tentei ser radical, não mexi muito nos cabelos e todas as sombrancelhas eram naturais. Mas exige uma pesquisa para que pareça real”, contou.

E vem muito mais por aí. A Rede Globo já produz “Eterna Magia”, de Elizabeth Jhin, a próxima novela das seis, que será ambientada nos anos 1940. Novas minisséries de época também estão previstas para os próximos anos na emissora, inclusive uma de Silvio de Abreu que falará sobre Carmem Miranda, que deverá estrear no início de 2009.

 
 LEIA MAIS
A moda nas novelas de época
 
Especialista avalia figurinos de época
 
Entrevista com maquiador Guilherme Pereira
   
 
 

ÍNDICE

ANO 1 | Nº 4 | Fevereiro de 2007
capa
Por que todo mundo vê o BBB?
 
No BBB, todos querem ser artistas (até que provem o contrário)
 
Quando será que a fórmula do BBB vai se desgastar?
 
Para psicólogo, votar no paredão é uma forma de se “sentir” Deus
 
Multishow e pay-per-view também lucram com “BBB”
 
"BBB" também movimenta a internet
 
Sexo no BBB 2: Jéferson e Tarciana
 
Artigo - Big Palavrão, Brother!
reportagem especial
O esporte e a televisão brasileira
 
Há qualidade na cobertura jornalística esportiva brasileira?
 
A cultura esportiva das emissoras brasileiras
 
A assessoria de imprensa nos esportes
 
E se o tênis de mesa fosse transmitido?
 
Os contratos milionários do futebol
 
Patrocinador espera dar visibilidade à marca e valorizar equipe apoiada
 
Montanaro fala sobre o pouco espaço dos outros esportes na TV
 
Jogo rápido com Carlos Henrique Moreira, sócio da TopSports
esta é sua vida
O estrangeiro mais brasileiro de todos os tempos
 
Como chegar aos 50 anos de televisão com pique e sucesso?
 
TV Continental, teatro e ditadura militar
 
Atualmente, Adler narra futebol americano na Hungria
 
O reconhecimento de Luiz Salém
reportagem especial
A moda nas novelas de época
 
Especialista avalia figurinos de época
 
Entrevista com maquiador Guilherme Pereira
reportagem especial
Merchandising social nas novelas ajuda a população
 
Os vários tipos de hepatite
máquina do tempo
Rede Globo, 1971
 
Veja entrevistou Roberto Marinho
 
Entenda o caso Globo/Time-Life
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Jorge Zaidan leva informação aos produtores de todo o Brasil
 
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marcas que marcam
Cavalo de Aço e seus "filhotes" pelo Brasil
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Autor de "Vidas Opostas", em 2002, disse que sabia como vencer a TV Globo
 
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