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Rede Globo, 1971
 
Matéria da revista Veja de 24 de março de 1971 abordava a indústria da imagem e o crescimento da TV Globo, que abria caminho para se tornar a potência que é atualmente
 

Thell de Castro
Editor da Revista TH
thelldecastro@telehistoria.com.br

 
Reprodução

Walter Clark na capa da Veja de 24 de março de 1971
“Metade homem, metade TV”. Esse foi o título da reportagem de capa da revista Veja de 24 de março de 1971, quando a indústria da imagem era o destaque. A matéria teve dois astros: a Rede Globo de Televisão, que abria caminho para se tornar a potência que é atualmente, e Walter Clark, então principal diretor da emissora.

Naquela época, o prédio da Rua Von Martius, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, que contava com três andares, 8.200 metros quadrados de área construída, já tinha ficado pequeno para a Rede Globo.

O início modesto em 26 de abril de 1965, após meses de testes, não era mais observado em 1971, quando a emissora havia deixado as concorrentes TV Rio, TV Tupi, TV Record e a TV Excelsior (que havia falido um ano antes) para trás e consolidava sua liderança.

A Rede Globo contava com cinco canais próprios – Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Bauru e Brasília, que havia sido inaugurado uma semana antes da reportagem. Além disso, vendia programação para canais em Porto Alegre, Blumenau, Fortaleza, Curitiba, Salvador e Belém.

“Os seis estúdios que dividem o pavimento térreo com camarins, salas de maquilagem, rouparia e cenografia não conseguem mais atender à multiplicação das gravações de shows e novelas da estação. Depois de cinco anos de um trabalho tão artesanal quanto o do alfaiate Zé [José Acácio de Sousa, alfaiate particular de Clark], Walter Clark e sua equipe transformaram a Rede Globo de Televisão na maior, mais rica e mais poderosa indústria de diversões e informações do país”, contava a matéria.

Em março de 1971, o “Jornal Nacional” completava apenas um ano e meio de vida. O “Jornal Hoje” começaria em breve. Sucessos como “Fantástico”, “Globo Repórter” e “Esporte Espetacular” ainda aguardariam dois anos para aparecer. E a emissora já era uma máquina poderosa de entretenimento.

Segundo a reportagem, dos 20 programas de maior audiência no Rio de Janeiro e em São Paulo, todos eram da Globo. O slogan da emissora naquela época, quando já detinha 60% do mercado nacional, era “Tudo que é bom é na Globo” – que dois anos depois seria transformado em “O que é bom está na Globo”.

Mas nem tudo começou bem. No início, a Rede Globo era desconhecida e vários diretores passaram pelo canal até a casa ser colocada em ordem. O que facilitou a aceitação da emissora entre o público foram fatos como a excelente cobertura de uma grande enchente que ocorreu no Rio e o “Programa Silvio Santos”, que em 1969 obteve mais audiência que a chegada do Homem à Lua.

Arquivo TH Imagem

Silvio Santos: em 1969, mais audiência
que a chegada do Homem à Lua

Quando a emissora foi lançada, segundo dados da matéria, a TV Rio tinha então 20% da audiência; a Excelsior contava com 16%, a Tupi 13% e a Globo apenas 9%. “A emissora era um Boeing com o combustível errado. Tinha tudo para fazer uma boa programação, mas estava em último lugar”, afirmaram a Veja Ulisses Arce e José Otávio Castro Neves, que chefiavam, na época, a Central Globo de Vendas, atual Direção Geral de Comercialização.

A situação começou a melhorar quando uma série de medidas foi tomada por Walter Clark e seus diretores. As novelas melodramáticas, de “capa e espada”, escritas pela cubana Glória Magadan, foram substituídas por temas atuais através de Janete Clair, Dias Gomes e Walter Negrão, entre outros. Bons filmes também fizeram parte do pacote. Outro diferencial: a emissora foi conquistando a liderança pelas “beiradas”: primeiro os horários sem grande competição, como manhã e tarde, depois o horário nobre. Isso explica porque a demora para lançar um programa como o “Fantástico”, em 1973, para tirar da Tupi, com o “Programa Flávio Cavalcanti”, o único primeiro lugar que ainda faltava.

Mais um trecho da reportagem: “A Globo devia ganhar em São Paulo o que ganhava no Rio, vendendo o mesmo produto e, se possível, fabricando-o por preço mais baixo. Sua fórmula: centralizar a produção dos programas no Rio, concentrando o investimento num único produto, e depois revender os programas ao maior número de estações que pudessem encontrar”. Vale lembrar que, em 1971, o conceito de rede ainda engatinhava. A Rede Globo transmitira, pioneiramente, o “Jornal Nacional” em 1969 para cinco capitais. Mas ainda era pouco, pois grande parte da programação ainda era produzida localmente ou gravada em fita no Rio de Janeiro e enviados para as demais emissoras do grupo.

A TV Globo de São Paulo, antiga TV Paulista, foi valorizada quando ocorreu um incêndio em julho de 1969 no prédio do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Boa parte das produções passou a ser realizada, provisoriamente, em São Paulo.

Divulgação

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni
José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, era conhecido, na época, pela parceria de anos com Walter Clark, pois haviam trabalhado juntos anteriormente. Mas já tomava ares de "todo-poderoso" da programação global.

Boni, aos 35 anos, era o diretor da Central Globo de Produções desde 1967 e começava a se destacar pelas excelentes idéias e pelo perfeccionismo. “Sempre admirei o trabalho de Boni. Sem os vícios dos produtores vedetes, ele era o único capaz de organizar a produção de uma rede de TV”, declarou Clark.

Já integravam o cast da Rede Globo em 1971 os grandes nomes da teledramaturgia nacional, como Sérgio Cardoso, Francisco Cuoco, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Carlos Alberto, Tonia Carrero, Regina Duarte, Cláudio Cavalcanti, Cláudio Marzo, Armando Bogus, Paulo Goulart, Yoná Magalhães, Dina Sfat, entre outros, que ganhavam salários entre seis e 25 mil cruzeiros mensais. Os apresentadores, como Chico Anysio, Renato Corte Real, Jô Soares, entre outros, faturavam entre quatro e 25 mil cruzeiros mensais.

Outro trecho interessante da matéria: “De todos, o departamento de Boni é o que tem um orçamento mais generoso: 35 milhões de cruzeiros anuais. Pode fazer o que quiser com o dinheiro – até mesmo consumi-lo em uísque. (...) E Boni não se assusta com tanta confiança: “A produção de programas para a Globo é de minha inteira responsabilidade. O Walter apenas traça a política da casa na parte financeira e os objetivos a serem alcançados na produção”. Bonnie and Clark, como são chamados por alguns, não são apenas amigos: têm idéias comuns”. A declaração de Boni deixa claro que Clark foi fundamental para a expansão da Rede Globo, mas que ele, computando todos os anos seguintes, teve importância ainda maior.

A reportagem anuncia que uma indústria cinematográfica, para filmar as novelas, e uma gravadora, para lançar trilhas sonoras das produções e lançamentos do programa “Som Livre Exportação”, um sucesso da época, estavam nos planos. A gravadora, Som Livre, saiu no mesmo ano. As novelas esperaram um pouco mais – o Projac começou a ser construído em 1985 e foi inaugurado em 1995.

Para finalizar, outro fato interessante: em 1971, Walter Clark sonhava com ousadia: “Equipar-se para transmitir por canais especiais (linhas telefônicas), cobrando do espectador apaixonado por concerto, boxe, turfe ou qualquer outra coisa as imagens que receber. Por que não?”. A “profecia” do dirigente se tornou realidade em dois momentos: quando foi lançada a TV por assinatura, com canais especializados, no final dos anos 80, e mais recentemente, através dos conteúdos transmitidos via internet e telefone celular – tudo com participação, de alguma forma, da Rede Globo, é claro.

 
 LEIA MAIS
Rede Globo, 1971
 
Veja entrevistou Roberto Marinho
 
Entenda o caso Globo/Time-Life
   
 
 

ÍNDICE

ANO 1 | Nº 4 | Fevereiro de 2007
capa
Por que todo mundo vê o BBB?
 
No BBB, todos querem ser artistas (até que provem o contrário)
 
Quando será que a fórmula do BBB vai se desgastar?
 
Para psicólogo, votar no paredão é uma forma de se “sentir” Deus
 
Multishow e pay-per-view também lucram com “BBB”
 
"BBB" também movimenta a internet
 
Sexo no BBB 2: Jéferson e Tarciana
 
Artigo - Big Palavrão, Brother!
reportagem especial
O esporte e a televisão brasileira
 
Há qualidade na cobertura jornalística esportiva brasileira?
 
A cultura esportiva das emissoras brasileiras
 
A assessoria de imprensa nos esportes
 
E se o tênis de mesa fosse transmitido?
 
Os contratos milionários do futebol
 
Patrocinador espera dar visibilidade à marca e valorizar equipe apoiada
 
Montanaro fala sobre o pouco espaço dos outros esportes na TV
 
Jogo rápido com Carlos Henrique Moreira, sócio da TopSports
esta é sua vida
O estrangeiro mais brasileiro de todos os tempos
 
Como chegar aos 50 anos de televisão com pique e sucesso?
 
TV Continental, teatro e ditadura militar
 
Atualmente, Adler narra futebol americano na Hungria
 
O reconhecimento de Luiz Salém
reportagem especial
A moda nas novelas de época
 
Especialista avalia figurinos de época
 
Entrevista com maquiador Guilherme Pereira
reportagem especial
Merchandising social nas novelas ajuda a população
 
Os vários tipos de hepatite
máquina do tempo
Rede Globo, 1971
 
Veja entrevistou Roberto Marinho
 
Entenda o caso Globo/Time-Life
casos de sucesso
Jorge Zaidan leva informação aos produtores de todo o Brasil
 
Amigos e parceiros falam de Jorge Zaidan
perfil
Mário Lúcio de Freitas
marcas que marcam
Cavalo de Aço e seus "filhotes" pelo Brasil
tv curiosa
Autor de "Vidas Opostas", em 2002, disse que sabia como vencer a TV Globo
 
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