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A Rede Globo foi
inaugurada no dia 26 de abril de 1965. Os Diários
Associados, proprietários da Rede Tupi, que faziam
campanha contra a presença de capital estrangeiro na
mídia brasileira, denunciaram a existência de um
acordo entre Roberto Marinho e o grupo Time-Life,
que detinha alguns dos maiores veículos de
comunicação do mundo.
Reprodução

Carlos Lacerda, que mandou prender
norte-americanos e cubanos que
trabalhavam na TV Globo como
representantes do Time-Life |
Após diferenças entre Marinho e o governador Carlos
Lacerda, este mandou prender norte-americanos e
cubanos que trabalhavam na TV Globo como
representantes do Time-Life. Em seu livro, João
Calmon, que presidiu os Diários, conta que desse
episódio nasceu a campanha contra a invasão
estrangeira na mídia brasileira.
Além de ser contra a presença do capital
internacional, os Diários Associados brigavam
diretamente com a revista Life, já que editavam O
Cruzeiro em espanhol para distribuição na América
Latina. A revista Life Internacional era sua grande
concorrente e conseguia muitos anúncios, enquanto a
revista de Chateaubriand só dava prejuízos. Também
colaborou para a campanha um almoço ocorrido entre
Marinho e Calmon, como este relata em sua
autobiografia. |
“[Marinho] deu-me
várias informações sobre as suas ligações com o
grupo norte-americano e expôs-me também seus planos
para o lançamento de uma revista noticiosa semanal.
Durante bom tempo, na qualidade de presidente da
Abert e do Sindicato das Empresas Proprietárias de
Jornais e Revistas, procurei fazer com que Roberto
Marinho exibisse, publicamente, os documentos
relativos a sua transação com o grupo”.
Voltando à prisão
dos membros da Time-Life que trabalhavam na Rede
Globo, a partir do depoimento de um deles
descobriu-se a existência de um contrato entre a
Globo e o Time-Life. Segundo Calmon, como mostrava o
governador carioca, isso violava o regulamento dos
Serviços de Radiodifusão, o decreto 52.795, que
proibia ser firmado qualquer convênio, acordo ou
ajuste relativo à exploração de serviços de
teledifusão sem prévia autorização do Contel. A
denúncia de Lacerda foi enviada ao Ministério da
Justiça em 15 de junho de 1965, três meses após a
inauguração da emissora.
Foi aberta na Câmara dos Deputados, em Brasília, uma
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para
investigar a relação entre os grupos, que começou a
atuar em março de 1966, sob a presidência do
deputado Roberto Saturnino.
Luiz Eduardo Borgerth, que foi diretor da Rede Globo
durante muitos anos, relata que a pessoa que
encorajou Roberto Marinho a entrar no ramo da
televisão foi Andrew Heiskell, chairman do Time Inc.
E que, na verdade, a campanha nacionalista da Rede
Tupi fora realizada por que tentativas de
associações dos Diários Associados com outras
empresas norte-americanos não deram resultados.
“Roberto Marinho
aventurou-se, às vésperas de seu sexagésimo
aniversário, a fazer sua televisão, em associação
com o Time, inaugurando a TV Globo em 1965, ano em
que faria 61 anos. Sua associação com o Time-Life deflagrou uma violenta campanha
“nacionalista” promovida pelos Diários Associados,
denunciando a presença de capital estrangeiro na
radiodifusão, então proibida pela Constituição.
Hoje, doutor Roberto seria enaltecido. Naquela data,
a TV Tupi tinha tentado a mesma coisa com a CBS e a
NBC, sem resultados. Daí, o extremado nacionalismo”,
revelou Borgerth em seu livro “Quem e como fizemos a
TV Globo”.
João Calmon
denominou como “Invasão Branca” o acordo. A
preocupação ainda era outra: naquela época de Guerra
Fria e ditadura militar, os Diários Associados ainda
poderiam prejudicar sua reputação de anticomunistas,
passando a criticar um grupo norte-americano.
“A documentação
que João Calmon reuniu sobre o acordo TV Globo/Time-Life
convenceu-o de que havia uma violação flagrante ao
artigo 160 da Constituição do Brasil, que proibia a
propriedade de empresas jornalísticas a
estrangeiros. (...) Em fins de 1966, o Ministro da
Justiça, pressionado pela campanha dos Associados,
dispunha-se a promover “rigorosa investigação” a
respeito das denúncias sobre a infiltração de grupos
estrangeiros na imprensa, rádio e televisão do
país”. (Carneiro, 1999, p.436).
Essas e outras
denúncias foram analisadas e investigadas, seguidas
de inúmeras reclamações dos Diários Associados em
extensos artigos e reportagens nos veículos da rede.
Mas o feitiço virou contra o feiticeiro.
Borgerth explicou em seu livro que a campanha dos
Diários Associados impressionou os militares, então
nacionalistas, resultou no decreto que limitava o
número de canais para cada grupo, impedindo a Tupi
de seguir o mesmo caminho da TV Globo. Além disso,
Borgerth explica o acordo Time-Life e a rescisão:
“Na realidade, a
contribuição do Time-Life não passou de um
financiamento – sem juros e sem prazo, da escolha de
equipamentos insuficientes e de um totalmente novo,
bonito e inadequado projeto arquitetônico que em
nada contribuiu para a TV Globo, cujos concorrentes
achavam-se instalados em velhos cassinos ou cinemas
caindo aos pedaços, como viríamos a estar em São
Paulo e, até certo ponto, no Rio, o que em nada
perturbava e jamais perturbou um único
telespectador. Time-Life nada sabia do Brasil, o que
não era desdouro nenhum; fracassaram em todos os
lugares onde se meterem em televisão aberta, nos
Estados Unidos, inclusive, onde tinham as cinco
emissoras permitidas por lei em “grandes”
metrópoles, a saber, se não me falha a minha falha
memória: Buffalo, Grand Rapids, San Antonio, Denver
e San Diego! Este ponto de exclamação tem duplo
significado, o outro sendo o fato de que San Diego
teria uma importância fundamental para o futuro da
TV Globo”.
Ainda segundo
Borgerth, após “jogar fora” pouco mais de US$ 5
milhões (1965, 1966 e 1967) na operação, Time
desistiu. Mais do que desistiu, queriam ir embora de
qualquer jeito. Já no governo Médici, segundo
Calmon, foram rescindidos os acordos entre Roberto
Marinho e o grupo Time-Life. Como havia no contrato
uma cláusula prevendo a desistência de qualquer das
partes, Roberto Marinho procurou o presidente e
lamentou-se dos contratempos que lhe trouxera a
campanha contra o acordo.
“Em 1972, Roberto
Marinho devolveu-lhes parte do investimento, tão
pequena que eu tenho vergonha de escrever aqui, e,
salvo erro, sem juros, e nunca mais se falou nisso.
Acredite se quiser”, comentou Borgerth.
Ao deixar a
presidência, em 1967, Castelo Branco, segundo
Carneiro, deixou um ‘abacaxi’ para o Marechal Costa
e Silva, seu sucessor. Baixou um decreto-lei
limitando o número de televisões a cada grupo,
atingindo diretamente os Diários Associados,
proprietários de uma grande cadeia de emissoras no
País. Assis Chateaubriand escrevia, em artigos, que
existia uma conspiração para destruir os Diários
Associados.
Fernando Morais, em “Chatô, o rei do Brasil”,
afirmou que ou Chateaubriand delirava ou, de fato, o
mundo se juntara para reduzir a pó a cadeia que ele
levara quase meio século para edificar. No artigo 12
do decreto, Castelo limitou a cinco o número de
estações por grupo. Naquela data, segundo Morais,
começava a desmoronar a rede Associada de televisão,
cujo prestígio e poder seriam ocupados, anos depois,
exatamente pela Rede Globo de Televisão. Era a
primeira grande derrota do grupo fundado por Assis Chateaubriand.
A partir desse momento, a batalha contra o acordo
Globo/Time-Life terminou. Desta forma, após dois
anos de grande polêmica, os Diários Associados,
oficialmente, não abordaram mais o assunto. E fim de
papo... |