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Atrair o maior
número de telespectadores possível e, ao mesmo
tempo, informar a população sobre problemas sociais
presentes no dia a dia das pessoas. É o que faz o
merchandising social ou merchandising do bem,
presente principalmente nas novelas e minisséries da
televisão brasileira.
O uso do entretenimento como suporte às ações
sociais começou para valer nos anos 1980, mais
precisamente em 1986, quando a autora Glória Perez
inseriu na novela “Carmem”, exibida pela TV
Manchete, a discussão sobre a Aids. Mas foi a TV
Globo que investiu pesado nesse tipo de ação, com
inúmeras inserções de merchandising social em suas
produções.
Divulgação/TV Globo

Carolina
Dieckmann na cena que emocionou o Brasil |
Os resultados dessas ações ao longo dos anos provam
que foi de extrema importância para a sociedade a
inserção do merchandising social nas produções. Em
“Laços de Família”, exibida pela Globo em 2000, a
personagem Camila (Carolina Dieckmann), tinha
leucemia e precisava de um transplante de medula,
mas faltavam doadores. |
O público acompanhou de perto
a angústia, a dor e o sofrimento da jovem, que até
raspou o cabelo durante a novela. O efeito da trama
de Manoel Carlos não poderia ser melhor: o registro
nacional de doadores de medula óssea passou de 20
para 900 inscrições por mês. O aumento ficou
conhecido como “Efeito Camila”.
Manoel Carlos costuma inserir o merchandising social
em suas novelas conforme sente demanda. À época de
“Laços de Família”, o transplante de medula óssea
estava em crise por causa da falta de doadores. Como
ele não via nenhum tipo de ação na imprensa e
conhecia muitas pessoas na fila de espera por um
transplante, chegou à seguinte conclusão: a razão
pela qual a maioria se negava a fazer doações era
porque ninguém sabia do que se tratava.
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A hepatite, principal causa de transplante de fígado
no Brasil, foi recentemente utilizada por duas
produções como merchandising social. “Páginas da
Vida”, do próprio Manoel Carlos, e “Bicho do Mato”,
de Cristianne Fridman, exibida pela Rede Record.
Nesta, a protagonista Cecília, vivida pela atriz
Renata Dominguez, é vítima de intoxicação por
uma ação do vilão Ramalho (Jonas Bloch). |
Divulgação/TV Record

O drama de
Cecília em "Bicho do Mato" |
Ele pagou a uma
falsa enfermeira para dar à médica um comprimido com
uma substância em excesso, o que causou uma hepatite
medicamentosa. A personagem teve complicações em seu
quadro de saúde, entrou em coma e necessitou de um
transplante de fígado – providenciado após a
constatação de que seu noivo, Juba (André Bankoff),
era compatível.
Divulgação/TV Record

Maria
Cristina Ribeiro Castro (esq) foi entrevistada
na novela "Bicho do Mato" |
Além disso, foi realizada uma entrevista com Maria
Cristina Ribeiro de Castro, presidente da Associação
Brasileira de Transplante de Órgãos, no “Jornal da Lili”,
apresentado pela jornalista Lili (Ana Beatriz Nogueira) e
Roberto (Augusto Vargas). A médica falou sobre
transplante e doação de órgãos e tecidos no Brasil. |
A ação foi
considerada extremamente positiva. “Foi um forte estímulo ao aumento da doação de
órgãos e tecidos no País, tão necessário para
amenizar o sofrimento dos mais de 60 mil brasileiros
que esperam por um doador”, comenta Castro.
A idéia da emissora foi chamar atenção para doença,
pouco diagnosticada no País, e também abordar a
questão da doação de órgãos. Segundo Carlos Varaldo,
presidente do
Grupo Otimismo de Apoio ao Portador de
Hepatite, é de fundamental importância que a mídia
em geral coloque a doença nas matérias. “O governo
nunca fez nenhuma campanha de alerta sobre as
hepatites B ou C”, comenta. Varaldo já contraiu
hepatite C, mas conseguiu se curar.
A doença é um dos mais sérios problemas de saúde
pública no Brasil, sendo a principal causa de
transplante de fígados no País. Existem seis tipos
conhecidos da doença: hepatites A, B, C, D e E, e
hepatite medicamentosa, sendo as mais perigosas a B
e a C, que já infectam cinco vezes mais que a Aids.
De acordo com estimativas do Ministério da Saúde,
cerca de três milhões de brasileiros podem estar
infectados pelo vírus HCV, ou seja, 1,5% da
população.
Como a hepatite C raramente provoca sintomas, a
doença só é descoberta quando evolui para quadros
mais graves como cirrose ou câncer. Por isso, cerca
de 90% dos contaminados não sabem que são portadores
do vírus. O HCV é transmitido pelo contato com
sangue humano contaminado. Pessoas que receberam
transfusão de sangue ou derivados antes de 1992
podem ter adquirido hepatite C, já que até a data as
bolsas de sangue não eram testadas contra o vírus.
Apesar de grave, hoje a doença já tem grandes
chances de cura. Cerca de 20% dos infectados
eliminam o vírus espontaneamente. Dos 80% restantes,
cerca de dois terços são curados, quando tratados
corretamente. Quanto mais cedo for detectada a
hepatite C, maiores as chances de cura ou de impedir
a progressão da doença para a cirrose ou um câncer
no fígado.
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Segundo Varaldo, atualmente 70% das pessoas que
estão na lista de espera de um fígado para
transplante são por causa da hepatite C. A falta de
diagnostico aumenta a lista de forma constante. “O
melhor a ser feito para evitar os transplantes
seriam ações preventivas, testando a população e
tratando as hepatites B e C, evitando que os
infectados desenvolvam cirrose ou câncer no fígado,
não necessitando de um transplante”, explica. |
Divulgação

Carlos
Varaldo, presidente do Grupo Otimismo |
Conhecendo a condição de portador, o paciente poderá
ser tratado corretamente. O tratamento consegue a
cura de aproximadamente sessenta por cento dos
tratados, mas é demorado e caro, chegando a seis mil
reais mensais em caso se feito da forma particular,
com duração de 11 meses.
A terapia mais avançada para combater o problema é
conhecida como Interferon Peguilado, que está
disponível gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de
Saúde). No entanto, para Carlos Varaldo, o governo
precisa facilitar o acesso ao serviço, já que em
2006 apenas oito mil pessoas receberam o tratamento,
sendo que grande parte o consegue somente após uma
ação judicial.
Hepatite no Carnaval
O
Carnaval esconde um perigo invisível: as doenças
sexualmente transmissíveis. É nessa época que é
registrado um aumento considerável de infectados, já
que as relações sexuais acontecem de forma mais
irresponsável e sem compromisso.
Entre as DSTs, a hepatite B (HBV) é uma das que mais
preocupam as autoridades, já que contagia até 100
vezes mais do que a Aids. O vírus da hepatite B
ataca o fígado e pode ser encontrado no sangue,
saliva, sêmen, secreção vaginal, fluído menstrual,
urina e no leite materno. A transmissão do HBV
ocorre quando o sangue ou fluídos orgânicos
contaminados penetram na corrente sanguínea, em
geral, através de injeções ou relações sexuais
desprotegidas.
A ausência de sintomas faz com que a doença não seja
percebida. No entanto, quando aparecem, os possíveis
sintomas vão desde mal-estar, dores de cabeça e no
corpo, cansaço, falta de apetite e febre, até a
mudança da coloração das mucosas e pele, que ficam
mais amareladas. A urina com uma cor escura e as
fezes mais claras também fazem parte do quadro de
sintomas.
Segundo especialistas, a desinformação da população
é o principal obstáculo para o diagnóstico preciso,
eficaz e o correto tratamento da doença. Diante
disso, a vacinação, a realização do teste de
detecção da hepatite B, o não compartilhamento de
objetos cortantes e de higiene pessoal, e o uso da
camisinha são indispensáveis para se evitar a
propagação da doença.
Grupo
Otimismo
O
Grupo Otimismo é uma organização não governamental
(ONG) de apoio ao portador de hepatite, formado por
voluntários em 1998 e legalizado em 1999. Seu
fundador é o químico e economista Carlos Varaldo, um
argentino que vive no Brasil desde 1970. Em 1995,
após uma doação de sangue, descobriu que tinha
hepatite C. Apesar de já ter se curado, sua luta
para a prevenção e cura da doença não pára.
Formado por portadores da doença, o grupo tem como
objetivo a divulgação das hepatites, suas formas de
prevenção e tratamento, negociando com governos de
todas as esferas, para disponibilizar atendimento a
população. Para isso, empregam diversas formas de
negociação ou pressão, que compreendem a propositura
de ações de saúde publica e, quando não são
atendidos, apelam para a mídia e para o Ministério
Publico e Justiça.
Divulgação/TV Globo

José Wilker é
um dos artistas voluntários
do Grupo Otimismo |
O grupo tem como objetivo principal acabar com o
estigma que a doença carrega na sociedade. Mais de
um milhão de folders já foram distribuídos e seis
filmes institucionais foram veiculados pela Rede
Globo e emissoras educativas. A ONG tem como
voluntários artistas como Cissa Guimarães, José
Wilker, Cristiana Oliveira, Patrícia Pillar e Miguel
Falabella. |
O Grupo Otimismo é considerada a maior ONG existente
nos países de língua portuguesa e espanhola, conta
atualmente com 21.500 associados, sendo reconhecida
por governos de diversos países e por diversas
sociedades cientificas de Hepatologia, Infectologia
e Gastroenterologia. Integrantes do grupo participam
como convidados e palestrantes da maioria dos
congressos nacionais e internacionais sobre
hepatologia. Além disso, o Grupo Otimismo faz parte
do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da
Fiocruz. |