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RESPONSABILIDADE SOCIAL
 
 
Merchandising social nas novelas ajuda a população
 

Ações em novelas e minisséries crescem a cada ano; em 2007, “Bicho do Mato”, da Rede Record, abordou hepatite medicamentosa e transplante de órgãos

 

Daniel Smith
Repórter da Revista TH
danielsmith@telehistoria.com.br

 

Atrair o maior número de telespectadores possível e, ao mesmo tempo, informar a população sobre problemas sociais presentes no dia a dia das pessoas. É o que faz o merchandising social ou merchandising do bem, presente principalmente nas novelas e minisséries da televisão brasileira.

O uso do entretenimento como suporte às ações sociais começou para valer nos anos 1980, mais precisamente em 1986, quando a autora Glória Perez inseriu na novela “Carmem”, exibida pela TV Manchete, a discussão sobre a Aids. Mas foi a TV Globo que investiu pesado nesse tipo de ação, com inúmeras inserções de merchandising social em suas produções.
 
Divulgação/TV Globo

Carolina Dieckmann na cena que emocionou o Brasil
Os resultados dessas ações ao longo dos anos provam que foi de extrema importância para a sociedade a inserção do merchandising social nas produções. Em “Laços de Família”, exibida pela Globo em 2000, a personagem Camila (Carolina Dieckmann), tinha leucemia e precisava de um transplante de medula, mas faltavam doadores.

O público acompanhou de perto a angústia, a dor e o sofrimento da jovem, que até raspou o cabelo durante a novela. O efeito da trama de Manoel Carlos não poderia ser melhor: o registro nacional de doadores de medula óssea passou de 20 para 900 inscrições por mês. O aumento ficou conhecido como “Efeito Camila”.

Manoel Carlos costuma inserir o merchandising social em suas novelas conforme sente demanda. À época de “Laços de Família”, o transplante de medula óssea estava em crise por causa da falta de doadores. Como ele não via nenhum tipo de ação na imprensa e conhecia muitas pessoas na fila de espera por um transplante, chegou à seguinte conclusão: a razão pela qual a maioria se negava a fazer doações era porque ninguém sabia do que se tratava.
 
A hepatite, principal causa de transplante de fígado no Brasil, foi recentemente utilizada por duas produções como merchandising social. “Páginas da Vida”, do próprio Manoel Carlos, e “Bicho do Mato”, de Cristianne Fridman, exibida pela Rede Record. Nesta, a protagonista Cecília, vivida pela atriz Renata Dominguez, é vítima de intoxicação por uma ação do vilão Ramalho (Jonas Bloch).

Divulgação/TV Record

O drama de Cecília em "Bicho do Mato"

Ele pagou a uma falsa enfermeira para dar à médica um comprimido com uma substância em excesso, o que causou uma hepatite medicamentosa. A personagem teve complicações em seu quadro de saúde, entrou em coma e necessitou de um transplante de fígado – providenciado após a constatação de que seu noivo, Juba (André Bankoff), era compatível.
 
Divulgação/TV Record

Maria Cristina Ribeiro Castro (esq) foi entrevistada
na novela "Bicho do Mato"
Além disso, foi realizada uma entrevista com Maria Cristina Ribeiro de Castro, presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, no “Jornal da Lili”, apresentado pela jornalista Lili (Ana Beatriz Nogueira) e Roberto (Augusto Vargas). A médica falou sobre transplante e doação de órgãos e tecidos no Brasil.

A ação foi considerada extremamente positiva. “Foi um forte estímulo ao aumento da doação de órgãos e tecidos no País, tão necessário para amenizar o sofrimento dos mais de 60 mil brasileiros que esperam por um doador”, comenta Castro.

A idéia da emissora foi chamar atenção para doença, pouco diagnosticada no País, e também abordar a questão da doação de órgãos. Segundo Carlos Varaldo, presidente do Grupo Otimismo de Apoio ao Portador de Hepatite, é de fundamental importância que a mídia em geral coloque a doença nas matérias. “O governo nunca fez nenhuma campanha de alerta sobre as hepatites B ou C”, comenta. Varaldo já contraiu hepatite C, mas conseguiu se curar.

A doença é um dos mais sérios problemas de saúde pública no Brasil, sendo a principal causa de transplante de fígados no País. Existem seis tipos conhecidos da doença: hepatites A, B, C, D e E, e hepatite medicamentosa, sendo as mais perigosas a B e a C, que já infectam cinco vezes mais que a Aids. De acordo com estimativas do Ministério da Saúde, cerca de três milhões de brasileiros podem estar infectados pelo vírus HCV, ou seja, 1,5% da população.

Como a hepatite C raramente provoca sintomas, a doença só é descoberta quando evolui para quadros mais graves como cirrose ou câncer. Por isso, cerca de 90% dos contaminados não sabem que são portadores do vírus. O HCV é transmitido pelo contato com sangue humano contaminado. Pessoas que receberam transfusão de sangue ou derivados antes de 1992 podem ter adquirido hepatite C, já que até a data as bolsas de sangue não eram testadas contra o vírus.

Apesar de grave, hoje a doença já tem grandes chances de cura. Cerca de 20% dos infectados eliminam o vírus espontaneamente. Dos 80% restantes, cerca de dois terços são curados, quando tratados corretamente. Quanto mais cedo for detectada a hepatite C, maiores as chances de cura ou de impedir a progressão da doença para a cirrose ou um câncer no fígado.
 
Segundo Varaldo, atualmente 70% das pessoas que estão na lista de espera de um fígado para transplante são por causa da hepatite C. A falta de diagnostico aumenta a lista de forma constante. “O melhor a ser feito para evitar os transplantes seriam ações preventivas, testando a população e tratando as hepatites B e C, evitando que os infectados desenvolvam cirrose ou câncer no fígado, não necessitando de um transplante”, explica.

Divulgação

Carlos Varaldo, presidente do Grupo Otimismo

Conhecendo a condição de portador, o paciente poderá ser tratado corretamente. O tratamento consegue a cura de aproximadamente sessenta por cento dos tratados, mas é demorado e caro, chegando a seis mil reais mensais em caso se feito da forma particular, com duração de 11 meses.

A terapia mais avançada para combater o problema é conhecida como Interferon Peguilado, que está disponível gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde). No entanto, para Carlos Varaldo, o governo precisa facilitar o acesso ao serviço, já que em 2006 apenas oito mil pessoas receberam o tratamento, sendo que grande parte o consegue somente após uma ação judicial.

Hepatite no Carnaval

O Carnaval esconde um perigo invisível: as doenças sexualmente transmissíveis. É nessa época que é registrado um aumento considerável de infectados, já que as relações sexuais acontecem de forma mais irresponsável e sem compromisso.

Entre as DSTs, a hepatite B (HBV) é uma das que mais preocupam as autoridades, já que contagia até 100 vezes mais do que a Aids. O vírus da hepatite B ataca o fígado e pode ser encontrado no sangue, saliva, sêmen, secreção vaginal, fluído menstrual, urina e no leite materno. A transmissão do HBV ocorre quando o sangue ou fluídos orgânicos contaminados penetram na corrente sanguínea, em geral, através de injeções ou relações sexuais desprotegidas.

A ausência de sintomas faz com que a doença não seja percebida. No entanto, quando aparecem, os possíveis sintomas vão desde mal-estar, dores de cabeça e no corpo, cansaço, falta de apetite e febre, até a mudança da coloração das mucosas e pele, que ficam mais amareladas. A urina com uma cor escura e as fezes mais claras também fazem parte do quadro de sintomas.

Segundo especialistas, a desinformação da população é o principal obstáculo para o diagnóstico preciso, eficaz e o correto tratamento da doença. Diante disso, a vacinação, a realização do teste de detecção da hepatite B, o não compartilhamento de objetos cortantes e de higiene pessoal, e o uso da camisinha são indispensáveis para se evitar a propagação da doença.

Grupo Otimismo

O Grupo Otimismo é uma organização não governamental (ONG) de apoio ao portador de hepatite, formado por voluntários em 1998 e legalizado em 1999. Seu fundador é o químico e economista Carlos Varaldo, um argentino que vive no Brasil desde 1970. Em 1995, após uma doação de sangue, descobriu que tinha hepatite C. Apesar de já ter se curado, sua luta para a prevenção e cura da doença não pára.

Formado por portadores da doença, o grupo tem como objetivo a divulgação das hepatites, suas formas de prevenção e tratamento, negociando com governos de todas as esferas, para disponibilizar atendimento a população. Para isso, empregam diversas formas de negociação ou pressão, que compreendem a propositura de ações de saúde publica e, quando não são atendidos, apelam para a mídia e para o Ministério Publico e Justiça.
 
Divulgação/TV Globo

José Wilker é um dos artistas voluntários
do Grupo Otimismo
O grupo tem como objetivo principal acabar com o estigma que a doença carrega na sociedade. Mais de um milhão de folders já foram distribuídos e seis filmes institucionais foram veiculados pela Rede Globo e emissoras educativas. A ONG tem como voluntários artistas como Cissa Guimarães, José Wilker, Cristiana Oliveira, Patrícia Pillar e Miguel Falabella.

O Grupo Otimismo é considerada a maior ONG existente nos países de língua portuguesa e espanhola, conta atualmente com 21.500 associados, sendo reconhecida por governos de diversos países e por diversas sociedades cientificas de Hepatologia, Infectologia e Gastroenterologia. Integrantes do grupo participam como convidados e palestrantes da maioria dos congressos nacionais e internacionais sobre hepatologia. Além disso, o Grupo Otimismo faz parte do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Fiocruz.

 
 LEIA MAIS
Merchandising social nas novelas ajuda a população
 
Os vários tipos de hepatite
   
 
 

ÍNDICE

ANO 1 | Nº 4 | Fevereiro de 2007
capa
Por que todo mundo vê o BBB?
 
No BBB, todos querem ser artistas (até que provem o contrário)
 
Quando será que a fórmula do BBB vai se desgastar?
 
Para psicólogo, votar no paredão é uma forma de se “sentir” Deus
 
Multishow e pay-per-view também lucram com “BBB”
 
"BBB" também movimenta a internet
 
Sexo no BBB 2: Jéferson e Tarciana
 
Artigo - Big Palavrão, Brother!
reportagem especial
O esporte e a televisão brasileira
 
Há qualidade na cobertura jornalística esportiva brasileira?
 
A cultura esportiva das emissoras brasileiras
 
A assessoria de imprensa nos esportes
 
E se o tênis de mesa fosse transmitido?
 
Os contratos milionários do futebol
 
Patrocinador espera dar visibilidade à marca e valorizar equipe apoiada
 
Montanaro fala sobre o pouco espaço dos outros esportes na TV
 
Jogo rápido com Carlos Henrique Moreira, sócio da TopSports
esta é sua vida
O estrangeiro mais brasileiro de todos os tempos
 
Como chegar aos 50 anos de televisão com pique e sucesso?
 
TV Continental, teatro e ditadura militar
 
Atualmente, Adler narra futebol americano na Hungria
 
O reconhecimento de Luiz Salém
reportagem especial
A moda nas novelas de época
 
Especialista avalia figurinos de época
 
Entrevista com maquiador Guilherme Pereira
reportagem especial
Merchandising social nas novelas ajuda a população
 
Os vários tipos de hepatite
máquina do tempo
Rede Globo, 1971
 
Veja entrevistou Roberto Marinho
 
Entenda o caso Globo/Time-Life
casos de sucesso
Jorge Zaidan leva informação aos produtores de todo o Brasil
 
Amigos e parceiros falam de Jorge Zaidan
perfil
Mário Lúcio de Freitas
marcas que marcam
Cavalo de Aço e seus "filhotes" pelo Brasil
tv curiosa
Autor de "Vidas Opostas", em 2002, disse que sabia como vencer a TV Globo
 
TH INDICA
Grupo Otimismo
 
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