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O ano de 1944 foi
marcado pela Segunda Guerra Mundial, iniciada em
1939. Foi um ano triste, para ser esquecido por
quase todo o mundo, mas não para os brasileiros, em
especial para os amantes da cultura nacional. Em
junho de 1944, nasceram dois grandes artistas: Chico
Buarque de Hollanda, no Rio de Janeiro, e André José
Adler, na Hungria, o estrangeiro mais brasileiro de
todos os tempos.
A televisão brasileira completou 50 anos em 2000. Em
1950, Assis Chateaubriand lançou o primeiro canal de
TV da América Latina, a TV Tupi. Desde então, a
televisão cresceu no País e representa hoje um fator
importante na cultural popular moderna da sociedade
brasileira.
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Durante esse tempo, muitas emissoras surgiram e
outras se foram. Grandes nomes também já passaram
pela história da televisão, mas poucos conseguiram
ficar até os dias atuais com o mesmo sucesso de
antigamente. Podemos destacar nomes como Hebe
Camargo, Lolita Rodrigues, Lima Duarte, entre
outros. |
Arquivo pessoal

Adler, sua mãe e seus dois irmãos |
Desde 2005, mais um
importante nome entra para essa seleta galeria
dos artistas com mais de 50 anos de carreira na TV:
André Adler, ator, diretor, autor e narrador, que
fez de sua vida pessoal um holofote de luz e
encanto. É mais um nome que marca a tele história
nacional.
Adler nasceu em Budapeste,
Hungria. Com as dificuldades geradas pela Segunda
Guerra, sua família mudou para cá. “Minha família
chegou no Brasil em 12 de janeiro de 1948. Eu tinha
três anos, três meses e 21 dias. Nasci numa noite de
bombardeio soviético em Budapeste, no primeiro dia
do verão de 1944, em plena Segunda Guerra. A Hungria
já estava sob a ocupação nazista há três meses.
Nessa época, a minha tia paterna já estava no Brasil
cuidando de interesses comerciais do meu avô, junto
com o marido e a minha prima. Menos de um ano
depois, o Exército Vermelho já havia expelido os
alemães, mas plantou-se no país, impondo o comunismo
de clientela. Minha família conseguiu prever como
isto atrasaria (e atrasou) o país e resolveu emigrar
antes que fosse tarde demais para sair. Devido às
circunstâncias, o Brasil foi o caminho natural”,
conta.
No
Brasil, Adler participou pela primeira vez de um
programa de televisão na antiga TV Rio, canal 13, no
programa “Nossos Filhos Pensam Assim”, de José
Acrisio. “Era um programa de entrevistas. Escolhiam
sempre umas quatro ou cinco crianças para dar a sua
opinião sobre tópicos variados. Um colega meu, o
Ciro, do Colégio Mello e Souza, havia participado e
eu achei legal e me inscrevi também. Eu não lembro
das perguntas e nem das respostas, mas eu disse
alguma coisa que todo o auditório aplaudiu e
gostei”, relata. “Lembro só que o cachê era uma lata
de Ovomaltine”, completa.
O
‘truque’ das orelhas
Meses
depois, lá estava Adler no Baile Infantil do Teatro
Municipal. Uma linda apresentadora, cantora e atriz
da época, Aidée Miranda, estava entrevistando
crianças para a TV Tupi carioca. “Eu entrei na fila.
Ela perguntava o nome e a fantasia de cada um. Eu
estava de marinheiro americano. Mas eu perguntei
para a Aidée se ela queria ver eu fazer uma coisa
que ninguém faz. Ela, meio temerosa, disse que sim.
E eu dobrei as minhas orelhas (um tanto de abano)
para dentro, e elas ficaram assim. Essa façanha já
não sou capaz de fazer devido ao bisturi do Dr.
Farid Hakme nos anos 80”, relata o artista.
Depois de sua rápida participação na TV, Adler
passou um ano sem dar as caras na telinha. Mas,
quando retornou, foi eleito pela Revista da
Televisão como a revelação infantil de 1957. O
veículo era famoso na época, sendo dirigido por
Gontijo Teodoro, do “Repórter Esso”.
Esse retorno à TV também foi por acaso, pois Adler
era escoteiro e um acampamento em Cabo Frio havia
sido cancelado devido às fortes chuvas. Como havia
sido promovido a monitor da patrulha, o jovem ficara
triste. “Fiquei vendo televisão até tarde. Passou
uma chamada do programa chamado ‘Caleidoscópio’, do
Carlos Frias, e eu resolvi que assistiria no
auditório da Tupi. No dia seguinte, eu fui, e quando
já estava indo embora vi a Aidée Miranda batendo
texto com o locutor e ator Fernando Garcia, que era
seu marido”, explica.
Adler foi falar com a atriz e perguntou se ela se
lembrava do garotinho que fez o ‘truque’ das orelhas
meses antes. “Depois de repetir o truque, ela
lembrou, claro. Contei que era escoteiro e que nos
Fogos de Conselho inventava cenas de teatrinho e
fazia com os meus amiguinhos. Ficamos batendo papo,
eles me acharam muito desembaraçado e perguntaram se
gostaria de trabalhar na televisão. Eu disse que
sim, claro. Eles me pedir para voltar lá na segunda
seguinte para me apresentarem ao Maurício Sherman
[ator e diretor]”, relembra.
Arquivo pessoal

Adler como Pedrinho da primeira versão
do Sítio do Picapau Amarelo produzida
pela TV Tupi do Rio de Janeiro |
O jovem voltou e foi apresentado ao Sherman. Adler
lembra que, quando o conheceu, ele estava maquiado
de Fera, para o programa “A Bela e a Fera”. Dias
depois, o telefone tocou e Garcia anunciou que
Sherman queria fazer um teste com ele para o “Teatro
das Nove e Meia”. O garoto pediu autorização para a
mãe, que na época tinham a Confeitaria Piccadilly, e
foi para a Tupi. “O Sherman me deixou numa sala
lendo um script. Mais tarde, ele voltou com a Ida
Gomes, que faria o papel de uma mãe cleptomaníaca.
Começamos a ler. Acabei ganhando o papel e fui para
casa”, relata. “Quando minha mãe viu o script, tomou
até um susto. Era um papel importante. Ela pensou
que eu só apareceria servindo um café ou coisa
assim. Me perguntou se sabia mesmo o que estava
fazendo, e eu disse que sim”, completa. |
Chegou o dia da estréia: 28 de janeiro de 1957. No
último ensaio, na TV Tupi, Adler conheceu Lídia
Matos, que tinha um programa chamado “Cozinhando por
Esporte”, onde os artistas davam receitas e eram
entrevitados. Como o jovem contou que era o
cozinheiro da patrulha de escoteiros, ela o convidou
para ir ao programa na semana seguinte. No mesmo
dia, o irmão caçula de Adler, Jorge, fazia cinco
anos. Ele voltou para casa, comeu um pedaço de bolo
e seguiu novamente, na garupa da moto do irmão mais
velho, Thomas, para fazer a peça dramática. “Lembro
que levamos um papo com o Jece Valadão, que se
amarrou na moto do Thomas. Depois do programa,
quando voltamos para casa, um apartamento térreo na
Rua Santa Clara, em Copacabana, todo mundo estava na
janela batendo palmas para mim”, comenta.
Na semana seguinte, Adler foi ao programa de
culinária, levando um delicioso prato húngaro. “Por
segurança foi feito pela minha avó”, revela. No ar,
ao vivo, veio mais um convite. “Fui convidado para
participar de uma novela, e depois mais teleteatros.
Inclusive apresentava ‘Gladys e seus bichinhos’, com
a genial desenhista”, resume. Em virtude de tanto
trabalho, veio o prêmio de revelação da Revista da
TV.
Após o destaque obtido, novas oportunidades
surgiram. Um desses personagens tornou-se
inesquecível para milhares de pessoas. Adler fez o
primeiro Pedrinho do Sítio do Picapau Amarelo na TV
Tupi do Rio de Janeiro, ainda em 1957. Vale lembrar
que o sítio já existia em São Paulo e quem fazia o
papel era David José.
O artista lembra da felicidade que sentiu no momento
em que recebeu a notícia de que seria o Pedrinho.
“Eu já tinha lido quase todos os livros da série de
Monteiro Lobato. Sempre quando eu lia um livro, me
identificava com um dos personagens, e, claro, eu
era o Pedrinho na minha cabeça. Quando saíram as
primeiras notícias de que o Sítio seria feito no
Rio, fui perguntar ao Sherman quem faria o Pedrinho.
E ele disse: quero ver um brilho nos seus olhos!”,
relembra. “O brilho apareceu. Ele disse: o Pedrinho
vai ter sempre que ter este brilho. Vai ser você!
Bem, se eu lembro desses detalhes dá para imaginar a
alegria que senti”, completa.
Segundo Adler, o Sítio trouxe felicidade, mas também
gerou uma das maiores decepções de sua vida
artística. “O programa foi uma das minhas maiores
alegrias e também uma das minhas maiores tristezas.
Fiz o personagem por menos de seis meses, porque
entrei numa rápida fase de crescimento e fui
substituído por um menino mais novo, o saudoso Paulo
Benchimol, que foi muito meu amigo”, relata.
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A passagem pelo “Sítio do Picapau Amarelo” foi
fundamental para a consolidação de sua carreira,
pois o sucesso do personagem o projetou para os
palcos e outros trabalhos. “Eu marquei no Sítio e o
Sítio me marcou. Por sorte, no mesmo ano, estreei na
peça “Jogo das Crianças”, de João Bethencourt,
falecido recentemente, que também era o diretor da
peça. E com a honra de ter o presidente Juscelino
Kubistchek na platéia”, destaca. |
Arquivo pessoal

Adler fez Pedrinho no "Sítio" por apenas seis
meses,
mas papel marcou sua carreira para sempre |
Em janeiro de 1958, Adler filmou “Pega Ladrão”, com
direção de Alberto Pieralisi. “Acho que se não
tivesse surgido esses outros caminhos, eu teria sido
engolido pelo sucesso do Pedrinho, e já estaria
devidamente esquecido”, pondera.
Improvisando na TV ao vivo
Ainda
falando sobre o Sítio, o ator conta que contracenou
com alguns nomes que se consagrariam na história da
TV brasileira. Elísio de Albuquerque vivia o
Visconde; Daniel Filho era o Dr. Caramujo; Lúcia
Lambertini era a Emília e Leni Vieira, a Narizinho.
“Nada se compara à televisão ao vivo. Uma deliciosa
sensação de perigo que me motiva até hoje em jogos
ao vivo. O elenco do Sítio era maravilhoso e havia
um clima de muita amizade”, afirma.
Uma história interessante sobre improviso na TV foi
contada por Adler à reportagem: “Eu lembro muito bem
um episódio que começava com um diálogo entre o
Pedrinho e a Narizinho. Este diálogo armava a
situação e dava a deixa para a entrada da Emília em
cena. Começou o programa e deu um branco na Leni,
ela esqueceu o texto todo. A tensão no estúdio era
tão grande que poderiam até desligar o ar
condicionado. Eu comecei um monólogo onde eu dizia
minhas falas e as dela, como reflexão sobre o que eu
havia dito. Deu certo e dei a deixa. A Lúcia entrou
em cena e só não me deu um beijo na hora porque não
podia!”, relembra. “Outro lance interessante foi
quando fizemos uma cena quase sem nos movimentarmos,
porque tinha caído uma das lentes de contato da
Lúcia, a primeira pessoa que conheci usando lentes,
verdes e grossas. Improvisava-se muito e isso era
divertido!”, completa.
Arquivo pessoal

Adler
em três momentos ao lado de seu amigo Cláudio
Cavalcanti: nos anos 1950, 1980 e recentemente
O jovem ator, na época, lembra também que a
improvisação, às vezes, não dava certo, e que pagou
alguns micos no passado. “Nunca vou esquecer o maior
mico que paguei no ar na Tupi. Havia um programa de
um padre. A grande novela e diretora Ilza Silveira
teatralizava trechos da Bíblia para o Padre Porto.
Desta vez, era o episódio da mistura do joio e do
trigo. O Cláudio Cavalcanti e eu éramos dois
pastores. Na hora que dormíamos, o vilão misturava o
joio e o trigo. O tão vilão era interpretado por um
rapaz da Urca que fazia umas pontas na Tupi. Ele
estava tão falso e canastrão na cena, que o Cláudio
deu uma risadinha. Pra que? Imagine dois pastores
dormindo e rindo”, conta, aos risos. “Na cena
seguinte, acordados, o Cláudio e eu não agüentávamos
olhar um a cara do outro e falávamos olhando para as
orelhas. E isto se arrastou até entrarmos em cena
com o Walter Campos, que fazia o rei ou pai, não me
lembro. Só lembro que nunca mais fomos escalados
para o tal programa”, completa.
Adler guarda com carinho as lembranças do passado e
a honra de ter trabalhado com nomes inesquecíveis da
teledramaturgia nacional. “Eu guardo boas lembranças
de outros programas que fazia também, como Falcão
Negro, TV de Aventura, Tragédias de Bolso, Cineminha
do Titio, Vesperal Trol, entre outros. Ainda tive a
honra de participar de algumas grandes peças
internacionais no Grande Teatro, programa que era
dirigido alternadamente pelo Sérgio Britto e
Fernando Torres, onde tive a oportunidade de
contracenar com Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi,
Nathalia Thimberg, Francisco Cuoco, Aldo de Maio, e
outros grandes artistas que deixaram uma marca
inesquecível na televisão brasileira”, finaliza. |