Depois de entrar em contato com a caixinha de surpresas que é a televisão, em 1974 os capixabas ganham sua segunda emissora de TV: a TV Educativa do Espírito Santo, mais conhecida como TVE. Essa emissora surgiu da ideia de levar aos telespectadores a educação através das ondas televisivas. O conceito das tv’s educativas surgiu no início da década de 1960, quando apareceram diversas emissoras desse seguimento no Brasil, através de parceiras público-privadas.
Após anos de especulações sobre a entrada em funcionamento da nova televisão dos capixabas, finalmente a TVE-ES entrou no ar no dia 13 de junho de 1974, através da iniciativa do governo do Estado, na administração de Arthur Carlos Gerhardt Santos (1971–1975). Inicialmente os programas transmitidos eram todos da TV Cultura de São Paulo, fazendo com que os programas locais não existissem. A TVE-ES surge, dessa forma, apenas como repetidora de programação. Isso era bastante comum naquele contexto, e o mesmo aconteceu com a 1ª emissora do Estado, a TV Vitória – como mencionado no texto anterior sobre a TV no Espírito Santo.
Na época de sua inauguração os jornais capixabas saudaram a nova emissora, e ressaltaram que era de suma importância que a TVE-ES produzisse programas próprios para a intercalação na grade com aqueles produzidos na matriz. Isso mostrava como a população naquela conjuntura sentia a necessidade de ser representada na telinha.
Em seus primeiros anos a TVE-ES já enfrentava sérios problemas financeiros. O investimento que o governo do Estado havia despendido praticamente não havia dado retorno algum, mesmo porque a emissora não inseria anúncios e não tinha parceiros. Além disso, os equipamentos e o meio de transmissão via Embratel eram onerosos.
Mas essa crise que a TVE-ES enfrentava tinha um motivo: o objetivo do canal não era obter lucros astronômicos, mesmo porque, por princípio, as emissoras educativas não visam o ganho e enriquecimento. A proposta da emissora, já bastante evidente naquela época era levar educação, cidadania e cultura à população, e isso desde o começo foi seguido como meta.
Mesmo veiculando programas que oferecessem um conteúdo diferenciado aos telespectadores, a necessidade de levar a produção local aos capixabas pela TVE-ES se fazia cada vez mais necessária. Com a compra de mais equipamentos pela direção da emissora, alguns começaram a ser produzidos, mesmo que precariamente. Quando isso começou a acontecer, em 1976, a TVE-ES não dispunha de instalações físicas que servissem como estúdio. Os programas, dessa forma, tinham os mais inusitados cenários, como ruas e praças.
No decorrer dos anos 1970, vários desentendimentos fizeram com que a direção da emissora mudasse de mãos constantemente. A falta de organização fez a emissora sair do ar muitas vezes, com ameaça de ter a concessão cassada pelo Ministério das Comunicações. Mesmo com os incontáveis contratempos, e inicialmente com apenas oito pessoas, a equipe de produção tratou de arregaçar as mangas e colocar o time em campo. Tudo em vão, pois a década de 70 estava praticamente perdida. Funcionários eram demitidos, ao mesmo tempo em que a direção do canal não se entendia sobre os rumos dos projetos.
Começa os anos 1980 e com eles a esperança de dias melhores. No início do governo Gerson Camata (1983-1987), a Secretaria de Educação do Espírito Santo assume o comando da TVE-ES. Novos equipamentos são adquiridos, quando o canal finalmente passa o produzir programas locais com mais freqüência, com trabalhos mensais, semanais e até programas diários. Durante a década de 80 a emissora produziu 14 programas, fazendo o período ser conhecido como “os anos de ouro” do canal. Nessa época se destacaram os programas “Fanzine” e “Primeira Pessoa”, além do infantil de sucesso “Rataplan” e do “Espaço Dois”, no ar entre 1978 e 1989, hoje novamente reintegrado à grade.
Como os problemas técnicos desse período estavam praticamente contornados, a direção da TVE-ES passou a se preocupar com a interiorização da emissora, pois o canal era visto em quase todo o Estado. Por isso, surge o projeto “Quem é quem no ES”, uma série de documentários sobre o interior com o objetivo de mostrar as particularidades dos municípios, integrando-os com a região metropolitana de Vitória.
Em 1989, após um período de protestos de funcionários pedindo mais atenção do governo do Estado, a TVE-ES e a Rádio Espírito Santo passaram a ser gerenciadas por um mesmo sistema, que ganhou o nome de Rádio e Televisão Espírito Santo (RTV-ES). Sob esse novo sistema de gerência, os dois órgãos de comunicação do governo eram administrados debaixo da mesma bandeira.
Em 1991, um programa de destaque é levado ao ar: “O Povo na TV”. Com imagens ao vivo direto de praças públicas, a nova atração abria os microfones para a população reclamar de suas necessidades. Prestação de serviço e ajuda comunitária eram os motes de “O Povo na TV”, apresentando pelo jornalista Claudio Figueiredo. Com um estreito diálogo entre a população e as autoridades, o programa se destaca. Ele causa, no entanto, incômodo em algumas repartições públicas, afinal era a emissora do governo falando de problemas não resolvidos pelo mesmo. Resultado: apesar do sucesso, “O Povo na TV” sai da grade da TVE-ES em 1994.
No fim dos anos 90 as instalações da TVE-ES nos andares de número 8, 9 e 10 do Edifício das Fundações, no centro de Vitória, estavam precárias. Logo foi implantada a mudança para o Centro Cultural Carmélia Maria de Souza, com amplo espaço. Com isso a TVE-ES passa a ter o maior estúdio de televisão do Estado, apesar do espaço não ser totalmente aproveitado.
Atualmente a grade de programação da TVE-ES é composta por seis programas locais. O canal não tem telejornal diário, pois isso implicaria, mesmo que involuntariamente, mencionar alguns deslizes do governo, como falta de segurança, alunos sem merenda escolar e coisas do tipo. Por isso, o programa que supre essa ausência é o “Estúdio”, no ar ao meio-dia e às 18h, com entrevistas ao vivo no estúdio que traz comentários sobre o cotidiano. Preocupada com a divulgação da cultura local, a TVE-ES leva ao ar semanalmente três programas desse segmento: “Espaço Dois”, “Eu sou o samba” e “Curta Vídeo”, esse último apresenta e discute as produções audiovisuais capixabas. A economia é representada através do programa “Oportunidades” e o mundo rural também tem seu espaço com o “Nosso Campo”.
Com os vários contratempos de costume dos funcionários de uma emissora de cunho educativo, em 2002 os funcionários da TVE-ES lutaram para que o plano de cargos e salários fosse aprovado na Assembléia Legislativa do Espírito Santo. Depois de muitas reviravoltas isso finalmente acontece, fazendo o salário dos funcionários quase dobrar.
Em mais um imprevisto, em 2004 o transmissor da emissora sofre um curto-circuito e para de funcionar. A compra de um novo custaria aos cofres públicos em torno de R$ 500 mil. Até a chegada de outro transmissor o canal operou em baixa potência, atingindo apenas alguns municípios da Grande Vitória. Resolvido o problema, o sinal é restabelecido.
Compromisso em levar a educação e cidadania à população, brigas e intrigas internas, controle do poder e direção, aparelhos e salários defasados. Os problemas enfrentados pela TVE-ES ao longo dos seus 35 anos certamente não é exclusivo dessa emissora. As TV’s públicas e educativas no Brasil, além de objeto de informação, também foram e ainda são instrumentos de promoção e interesses pessoais dentro dos governos e órgãos que as administram. Mudar essa realidade “são outros quinhentos”.
Referências:
MARTINUZZO, José Antonio (org). Roda VT! A televisão capixaba em panorâmica. Vitória: DIO, 2006.
Site do Governo do Espírito Santo: www.es.gov.br
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